Sabemos que havia uma vida muito mais exuberante, diversificada e abundante sobre a terra antediluviana do que depois. Isto é suportado pelos enormes depósitos fósseis de vida vegetal e animal com dimensões individuais e coletivas muito maiores de altura naquela época em relação a vida que conhecemos hoje, além dos enormes depósitos de carvão. Tudo isso dependeria de condições ambientais distintas das que o planeta apresenta atualmente.

Nesse texto, tentaremos reconstruir brevemente as condições de um mundo anterior ao episódio bíblico do dilúvio, em consonância com que diz acerca deste tema o Dr. Henry Morris,1 presidente-fundador do Institute for Creation Research: “uma imagem do mundo antes do dilúvio é, em parte, especulação, porque não há como verificar isso cientificamente. Sempre haverá problemas, mas podemos tentar imaginar o que era o mundo pré-diluviano através do quadro bíblico e à luz dos recentes dados científicos que temos. Uma coisa que não devemos fazer é mudar ou distorcer o que a Palavra de Deus diz. Os dados geológicos estão sujeitos a diferentes interpretações, mas não podemos fazer isso com a Bíblia.”

Maior concentração de oxigênio e pressão atmosférica

De acordo com o físico-químico Dr. Jonathan Sarfati,2 existem “evidências de condições atmosféricas diferentes pré-diluvianas que se apóiam, por exemplo, na concentração de oxigênio ou na pressão atmosférica bem maior do que hoje. Isso deveria ter efeitos benéficos duplicados nas câmaras hiperbáricas de hoje. […]” Ele acrescenta, “os evolucionistas também propuseram maior concentração de oxigênio ou maior pressão atmosférica no passado.”

Para o Dr. Morris,1 “alguns pensam que, com toda essa água na atmosfera superior, no dossel de água, a pressão atmosférica na superfície terrestre teria sido intolerável. No entanto, não é bem assim. Parece concebível que este dossel de água poderia ter sido mantido mais ou menos em órbita, ou por meio das forças eletromagnéticas na atmosfera superior, sem necessariamente aumentar a pressão barométrica na superfície. Mas, mesmo que houvesse mais pressão, há muita evidência de que a vida prospera melhor sob as chamadas pressões hiperbáricas do que nas condições atuais de pressão.”

Dossel ou canopla de água ao redor do planeta

Com base em alguns versos indiretos, muitos criacionistas entendem a existência de um dossel de vapor d’água que envolvia a terra até a primeira chuva cair durante o dilúvio. Gênesis 1:7 diz: “Fez, portanto, deus o firmamento [atmosfera] e separou as águas estabelecidas abaixo desse limite [lençóis d’água, oceanos, rios], das que ficaram por cima [dossel].”.

Gênesis 7:11 afirma que “as comportas do céu se romperam”, confirmando-nos a idéia de um manancial que estava anteriormente suspenso e recluso, até que rompeu-se e precipitou toda a água armazenada de uma só vez.

É sabido que a hipótese do dossel era usada antigamente para defender a idéia de que “toda a água” do dilúvio teria vindo dessa camada de vapor. Hoje essa idéia já não se sustenta mais e essa visão tornou-se dogma para muitos cristãos, especialmente devido o fato de o dossel não suportar [em modelagens matemáticas] a quantidade de água necessária para se cobrir todo o globo com uma inundação. Apesar de a hipótese da quantidade de água condensada nesse dossel ser um tópico à parte, fato é que a Bíblia realmente nos fornecesse indícios da existência de uma canopla de água, embora não mencione a sua dimensão.

Montanhas mais baixas

Para o mestre em Ciências Brian Thomas,3 o fato de os animais chegarem a Noé, vindo de todas as regiões daquele único continente (Gn 1:9-10), também implica que eles não encontraram barreiras montanhosas intransponíveis, como os Himalaias, por exemplo.  As rochas da Terra contêm tantos fósseis marinhos rasos que devemos imaginar vastos mares rasos naquela época, ao contrário da maioria dos oceanos profundos de hoje. Além disso, a julgar pelos números e tipos de plantas pantanosas e animais enterrados com dinossauros, a terra pré-diluviana deve ter tido grandes regiões tipo pantanal. No entanto, pelo menos, algumas terras altas tinham solo, pois Gênesis 4 indica terrenos adequados para gado, provavelmente gramado, e outras áreas que forneceram metais preciosos e minerais.

7 maiores montanhas da Terra na atualidade – Na Terra anterior ao dilúvio esta configuração era bem diferente, sem altas montanhas.

Ausência de chuvas

Porque o Senhor não fizera chover sobre a Terra… Mas uma neblina subia da Terra e regava toda a superfície do solo… E saia um rio do Éden, para regar o jardim…” (Gênesis 2:5, 6 e 10)

Como observa Everett Peterson,4 “na criação, Deus estabeleceu um sistema de irrigação subterrâneo em vez do atual superficial. Deveria também ter estabelecido um método distinto para o ciclo hidrológico. De que forma? Hoje, com pressões atmosféricas altas temos bom tempo. Há alguns anos, quando severa seca assolou a Califórnia, as informações diziam que a sua causa era devido a uma linha de alta pressão ao longo da costa. Se a pressão atmosférica elevada impede a chuva, é provável então que a atmosfera original estivesse submetida a pressão maior do que as máximas atuais.

Oceanos rasos e o ciclo hidrológico

De acordo com o geólogo Max Hunter,5 “o ciclo hidrológico antediluviano pode ter sido muito diferente do de hoje. A “névoa” que regava a terra (Gn 2:6) pode ter resultado da lenta exsolução da água do manto criado através da crosta fria. As Escrituras indicam que os rios existiam, mas devido a uma provável falta de atividade de tempestade, e porque sua origem era da “névoa”, as taxas de fluxo nesses rios teriam sido extremamente regulares. As águas do rio provavelmente não carregavam sedimentos, resultando em nenhuma sedimentação nos oceanos pré-diluvianos. Eles podem ter contido sais dissolvidos que foram derivados do manto e foram nutricionais para homens e animais.”

Ele ainda sugeriu, com base na quantidade de água estimada para ter sido retirada do manto durante o dilúvio, que o volume de água antes do dilúvio pode ter sido cerca de 10% da água livre de hoje. Mais especificamente, ele postulou que 89% da água livre atualmente na superfície terrestre foi retirada do manto durante o dilúvio com “as fontes do grande fundo” e 1% foi precipitado do dossel pré-diluviano. Essa quantidade de água teria sido suficiente para proporcionar ambientes de profundidade adequados para todas as criaturas pré-diluvianas do mar.

A Terra antes do dilúvio provavelmente tinha oceanos rasos.

Uniformidade de temperatura em todo o planeta

Everett Peterson4 nos diz que “uma chave importante com relação à temperatura na Terra recém-criada é o fato de que Adão e Eva foram criados despidos. De acordo com a manifestação de Deus de que toda a criação era “muito boa”, não poderia existir frio demasiado para fazê-los tremer, nem calor bastante para fazê-los suar, mas sempre, em todo o ano, durante o dia e à noite, a temperatura deveria permanecer na zona de conforto para corpos não vestidos. Desta forma, toda a superfície da Terra devia permanecer na “zona de conforto. […] Isso teria sido uma impossibilidade se as regiões polares permanecessem vários meses no escuro, como hoje em dia. A Terra, portanto, deveria ter seu eixo perpendicular à eclítica, obrigando cada dia a ter a mesma duração durante todo o ano, em qualquer latitude. “Embora têm sido levantadas objeções à perpendicularidade do eixo da Terra em relação ao plano da eclítica,”

O Dr. Morris1 explica que “o fato de que a luz do sol, a lua e as estrelas brilhavam (Gn 1:15-17), indica que as águas superiores estavam na forma de vapor de água, não gelo ou nuvens. O vapor de água, é claro, é invisível e, portanto, totalmente transparente. Se isso for verdade, […] o efeito estufa em nossa atmosfera atual, por exemplo, teria sido tremendamente aumentado. O presente efeito estufa da atmosfera é fornecido pelo vapor de água, ozônio e dióxido de carbono na atmosfera presente. Provavelmente também havia muito mais dióxido de carbono na atmosfera antediluviana do que no presente.”

Ele ainda acrescenta que o efeito estufa deixaria a Terra pré-diluviana uniformemente quente e leve. As diferenças latitudinais na temperatura teriam sido mínimas. Isso significaria também, uma vez que o vento é principalmente o resultado de diferenças latitudinais de temperatura, que só haveria movimentos suaves de ar. As grandes tempestades do mundo presente estavam completamente ausentes no mundo antediluviano.

“Outro efeito desse dossel de água”, explica Dr. Morris,1 “seria que inibiria como cobertor térmico, a passagem de raios ultravioletas, de raios cósmicos e outras radiações prejudiciais. Mesmo a concentração do vapor de água atual na atmosférica faz isso de forma suficiente para tornar a vida possível na Terra. Isso tornaria o ambiente muito mais propício à longevidade. Os homens morreram antes do dilúvio, é claro, pela maldição do pecado sobre eles. Mas não foi até depois do dilúvio que houve uma redução na vida humana muito mais rápida devido o eventual colapso desse dossel [e uma redução da pressão atmosférica].”

Conforme conclui o cientista atmosférico Dr. Larry Vardiman,6 “não acredito que existisse [chuva], pelo menos perto do jardim do Éden. Mas apenas o tempo dirá se os esforços de modelagem são bem sucedidos no suporte de um dossel antes do dilúvio. Se a modelagem não for bem sucedida, a chuva provavelmente caiu antes do dilúvio, pelo menos longe do Jardim do Éden. Independente de qual explicação seja a mais coerente, a precisão da Bíblia não está em questão. Qualquer combinação desses modelos seria consistente com o relato bíblico, ou talvez um conjunto alternativo de condições, que ainda não descobrimos, tenha conduzido o clima pré-diluviano.”

Texto originalmente publicado em 24/08/2017 na Origem em Revista.

Referências:

1. Morris HM. The pre-flood world. Palestra realizada no Seminário de Criação, Springfield, Illinois, em 8 de julho de 1968. Transcrição disponível em: http://www.creationmoments.com/content/pre-flood-world

2.  Sarfati J. Flood models and biblical realism. Journal of Creation 2010; 24(3):46–53.

3. Thomas B. What Was the Pre-Flood World Like? Acts & Facts 2016; 45 (1). Disponível em: http://www.icr.org/article/what-was-pre-flood-world-like

4. Peterson EH. A necessidade das camadas atmosféricas de calor. Folha criacionista 1983; 12(28):2-11.

5. Hunter MJ. The pre-Flood/Flood boundary at the base of the earth’s transition zone. Journal of Creation 2000; 14(1):60–74.

6. Vardiman L. Did It Rain Before the Flood? Answers magazine (01/01/2013), Disponível em: https://answersingenesis.org/bible-questions/did-it-rain-before-the-flood/

Mestre em Ciências (Imunogenética) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Pós-graduando em Biotecnologia (Biologia molecular) pela mesma Universidade. Autor de dezenas de publicações em diversos periódicos científicos na área Biomédica. Membro da Sociedade Brasileira do Design Inteligente (SBDI) e autor do livro "Teoria do Design Inteligente: evidências científicas no campo das ciências biológicas e da saúde". É membro fundador do Núcleo Maringaense da SCB (Numar-SCB) e ex-Diretor de Ensino do Núcleo (2015-2017). A frente do Departamento de Ensino, foi o Idealizador/coordenador do Programa "Diálogo sobre as Origens" (2016-2017). Atualmente, é Cofundador e Editor-chefe da Origem em Revista.