Mês: Fevereiro 2018

Histórias bíblicas na cultura dos povos pré-colombianos

Ao analisar os registros históricos preservados por nativos pré-colombianos percebemos que eles acreditavam em um Criador Supremo e que suas lendas registram um dilúvio global. Percebemos também que muitos detalhes des­sas lendas são estranhamente parecidos com as narrativas bí­blicas do Gênesis, sendo inevitável uma associação com as terras e os povos da Bíblia. Depois de considerar vários povos antigos, a conclusão mais plausível é a de que boa parte dos nativos americanos herdaram da cultura mesopotâmica tradições que mostram claramente sua ligação com esta cultura e ainda a relacionam com tradições hebraicas. Esta similaridade se dá não só pela semelhança das lendas nativas com as histórias bíblicas, como também por alguns rituais. A seguir, apresentaremos alguns trechos bem curiosos de registros históricos que encontramos ao longo de nossa pesquisa.

A criação do Mundo – Os nativos peruanos e andinos preservaram relatos bíblicos sobre a Criação do Mundo, Adão e Eva e sobre Noé e sua mulher: “Isto é o que contam os índios peruanos acerca de sua origem, de acordo com a lista dos autores mencionados acima. Do qual o que podemos vender por verdade é que, sem dúvida, os índios tiveram notícias da Criação do mundo e da formação de Adão, Eva, da Inundação e de Noé e sua mulher” (García, 1729, p. 334, 335).

Figura 1: Escudo inca, um símbolo que retrata e registra a origem desse povo, mostrando que eles saíram de uma montanha após o dilúvio (Fonte:Poma de Ayala, 1941).

Alguns conceitos de saúde do Éden bíblico – Aqui percebemos como os Incas viviam mais de cem anos, comiam pouca gordura e outros alimentos, e casavam tarde: “De como esses incas e demais senhores. Principais ou yns. As pessoas particularmente antigas fizeram e aumentaram sua saúde e anos de vida entre 250 e 150 anos, eles duravam tanto porque tinham uma ordem e regras de seguir e criar seus filhos. Quando garoto, não lhe deixavam comer coisa de sebo [gordura] ou nada de mel ou pimenta, sal e vinagre, nem lhe deixavam ter meninas nem dormir com uma mulher até ter cinquenta anos, nem se sangrava e se purgava [expurgava, limpava] todos os meses com três pares de bilca tauri [sementes purgativas usadas pelos Incas, feitas em líquido, usadas como medicamento oral para induzir o vômito em rituais] e misturado com macay [erva medicinal purgativa] que se tomava pela boca a metade e a outra metade se fazia enema [líquido que se introduz no ânus]; com isso, aumentaram a saúde e a vida. Até os trinta anos não tinham mulher, nem marido, nem cargo e, assim, tinham grande força para guerrear” (Poma de Ayala, 1941, p. 118, 119).

Figura 2: Capa do livro El Primer Nueva Corónica y Buen Gobierno, de uma edição de 2011, porém o desenho é o mesmo da versão original (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Alimentação apenas duas vezes ao dia – Isolados na América, alguns grupos mantiveram os costumes após o dilúvio. A refeição principal era a da parte da manhã e sucos e líquidos durante todo o restante do dia e um lanche no meio da tarde, exatamente como aconselha a escritora norte-americano Ellen White: “Como isso era conhecido, o Atabalipa pediu que lhe dessem de comer, e ele ordenou que todo seu povo fizesse o mesmo. Eracostume comer pelas manhãs, e assim todos os nativos desse reino. Os Senhores, depois de ter comido, como digo, passavam o dia todo bebendo até a noite que comiam poucas coisas (Pizarro, 1917, p. 31).

Leis do Antigo Testamento – No trecho a seguir, extraído do livro Historia General del Perú, pode-se perceber semelhanças entre as leis dos Incas e a lei de Levítico: os incas não comiam sangue: “Que os da cidade de Cuzco de forma alguma comessem sangue ou qualquer coisa feita dele. Os leprosos e aqueles que eram porcos, sujos e nojentos, que os expulsassem do meio do povo, para que não contaminassem a outros, e o mesmo para aqueles que tinham enterrado algum falecido em sua casa. Ele ordenou que aqueles que derramassem a semente genital [esperma] fossem expulsos da cidade por um mês e, no início do outro mês, retornassem à cidade e que o pontífice ou o feiticeiro fizessem sacrifícios por ele e ou o que estivesse dormindo houvesse feito o mesmo, e primeiro entrassem desnudo em água fria e se lavasse. Que as mulheres tivessem ou andassem com companhia e vivessem honestamente. Os senhores ou ricos poderiam ter quantas quisessem e pudessem sustentar desde que fosse com o consentimento do Inca” (De Murúa, 1962, [Fol. 247], p. 90).

Neste trecho é possível perceber que, mesmo antes dos hebreus, o sangue tinha significado: “Os pontífices e os sacerdotes das huacas [santuário, templo] sacrificavam e ofereciam uns carneiros, que tinham dedicado para esse fim [sic], branco, sem mancha ou defeito [sic] qualquer” (De Murúa, 1962, [Fol. 256], p. 104).

Notamos também que eles vieram à América logo depois do dilúvio, centenas de anos antes de Abraão. Naquela altura, a lei já estava estabelecida (seja oral ou escrita) e podemos notar isso por meio da sua guarda do sábado: “Quanto ao terceiro preceito de santificar o sábado, eles tinham suas festas em dias designados, nos quais faziam grandes sacrifícios, e eles descansavam, particularmente no Peru. Os índios Totones, que são da Nova Espanha, estavam obrigados a ir ao Templo no sábado, à cerimônia que acontecia lá e ao sacrifício que ofereciam aos seus deuses” (García, 1729, p. 114).

Figura 3: Capa do livro Origen de los Índios de el Nuevo Mundo, e Indias Occidentales (Fonte: García, 1729).

Torre de babel – Várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma em especial relacionada aos Astecas diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula – na América central – para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. No livro Ophiolatreiavemos o seguinte:

“Quando as águas diminuíram, um dos gigantes, chamado Xelhua, apelidado de ‘Arquiteto’, foi a Cholula, onde, como memorial do Tlaloc, que serviu para um asilo para si e para seus seis irmãos, ele construiu uma colina artificial em forma de uma pirâmide. Ele ordenou que os tijolos fossem feitos na província de Tlalmanalco, ao pé da Serra de Cecotl, e, para carregá-los até Cholula, ele colocou uma fila de homens que os passou de mão em mão. Os deuses viram, com ira, um edifício cujo topo chegava às nuvens. Irritado pela tentativa atrevida de Xelhua, lançaram fogo na pirâmide [na tradição asteca seriam meteoritos ‘que haviam caído do céu envolvidos em uma bola de fogo’]. Numerosos trabalhadores morreram. O trabalho foi interrompido e o monumento foi depois dedicado para Quetzalcóatl” (Jennings, 1889, p. 63).

Figura 4: Segunda Edad. (vida no segundo milênio após o dilúvio). É curioso que as construções de pedra já estavam em pé. Isso significa que as construções megalíticas não foram obra dos Incas (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Uma inscrição original em Nahuatl, a língua asteca, que havia sido escrita pelo escriba nativo, abaixo de uma ilustração nativa encontrada no templo de Cholula, dizia: “Nobres e senhores, aqui vocês têm seus documentos, o espelho do seu passado, a história de seus antepassados, que, fora de medo de um dilúvio, construiu este lugar de refúgio ou asilo para a possibilidade de recorrer a tal calamidade” (Nuttall, 1901, p. 269).

Outro relato, atribuído pelo historiador nativo Fernando de Alva Cortés Ixtilxochitl aos antigos Toltecas, diz que depois de os homens terem se multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra (Ixtilxochitl, 1640).

O Sol “parou” por mais de 20 horas – Josué 10:12-14 relata um episódio que teria acontecido cerca de 1400 a.C.: “No dia em que o Senhor entregou os amorreus aos israelitas, Josué exclamou ao Senhor, na presença de Israel: ‘Sol, pare sobre Gibeom! E você, ó Lua, sobre o vale de Aijalom!’ O Sol parou, e a Lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos, como está escrito no Livro de Jasar. O Sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs.” 

O incidente, cuja singularidade é reconhecida na Bíblia (“Não existiu nenhum dia como esse, antes ou depois”), ocorreu do outro lado da Terra, em relação aos Andes situado na América do Sul, descrevendo um fenômeno oposto, mas complementar astronomicamente ao que ocorrera no Peru. Ao contrastarmos os dois relatos, percebemos que, em Canaã (Oriente Médio), o Sol não se pôs por cerca de vinte horas; nos Andes, o sol não se levantou pelo mesmo período de tempo (Sitchin, 1990).

Segundo Montesinos, quando “os bons costumes foram esquecidos e as pessoas se entregaram a todos os tipos de vícios”, houve um dia em que “não houve aurora por vinte horas” (Montesinos, 1882). Em outras palavras, a noite não terminou no horário de sempre e o nascer do sol foi adiado durante vinte horas. Depois de grande comoção, confissões de pecados, sacri­fícios e orações, o sol finalmente apareceu. No livro Memorias Antiguas Historiales y Políticas del Perú, encontra-se a seguinte citação: “Nos tempos do rei Titu Yupanqui Pachacuti “dizem os antigos amautas, e estes aprenderam com seus patriarcas e preservaram na memória pelos seus quipos [sistema binário ou código de leitura] para eterna memória, que o sol se cansou de caminhar e se escondeu dos vivos, e como castigo sua luz sumiu por mais de vinte horas. Os índios gritaram chamando a seu pai o Sol; fizeram grandes sacrifícios para acalmá-lo, oferecendo muitos cordeiros e donzelas e moços, e quando saiu a luz do Sol após as horas mencionadas, lhe agradeceram pelas bênçãos recebidas” (Montesinos, 1882, p. 57, 58).

Figura 5: Um Amauta usando um “quipu”; embora o desenho seja o da versão original, esta imagem foi retirada de uma reedição de 2011 (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Houve muitas interpretações desse fenômeno por cientistas. Em um estudo recente, os pesquisadores atribuíram o evento a um eclipse, aliás acreditam que podem ter identificado a data do mais antigo eclipse solar já registrado. (Humphreys e Wadington, 2017) De acordo com eles, “essa interpretação é apoiada pelo fato de que a palavra hebraica traduzida como ‘parado’ tem a mesma raiz que uma palavra babilônica usada em textos astronômicos antigos para descrever os eclipses”. Eles sugerem que o evento tenha ocorrido no dia 30 de outubro de 1207 a.C. – exatamente 3.224 anos atrás. Para tanto, os pesquisadores da Universidade de Cambridge usaram uma combinação de texto bíblico e texto egípcio antigo para entender a data do suposto eclipse solar.

Em outro estudo, com base em dados obtidos da Nasa, cientistas da Universidade Ben-Gurion do Neguev, em Berbesá, Israel, descobriram não apenas que o relato bíblico descrito em Josué 10:12-14 realmente aconteceu, como também, segundo eles, o dia e a hora exatos do fenômeno (Yitzchak, Weistaub e Avneer, 2017). A equipe de cientistas, chefiada pelo Dr. Hezi Yitzhak, também interpretou o acontecimento como sendo um eclipse, e que ele teria acontecido exatamente em 30 de outubro de 1207 a.C., às 16h28.

Para tanto, os pesquisadores interpretaram a palavra hebraica “dom” como “tornou-se escura” em vez do que tradicionalmente significava como “ficar parado”. Com base nos dados obtidos, eles descobriram que apenas um eclipse aconteceu entre os anos 1500 e 1000 a.C., o que coincide com a chegada dos israelitas ao local onde ocorreu a batalha descrita na Bíblia. Os resultados desse estudo foram publicados na revista Beit Mikra: Journal for the Study of the Bible and Its World.

Para mim, esse fenômeno não pode ter sido um eclipse, porque nenhum eclipse dura tanto tempo. Além disso, os povos incas tinham conhecimento de tais eventos periódicos. A história não diz que o Sol desapareceu. Apenas afirma que “não houve aurora” por vinte horas. Foi como se o Sol, onde quer que tenha se escondido, tivesse parado.

 

Texto escrito em coautoria com o pesquisador Irwin Susanibar Chavez, a quem o Everton agradece profundamente por compartilhar com ele suas pesquisas e conhecimento.

Texto originalmente publicado em 11/02/2018 no Blog Criacionismo.

 

Referências:

De Murúa, Martín. Historia general del Perú, origen y descendencia de los incas. Vol. 1. Colección: Fondo Antiguo – Aurelio Miró Quesada. Madrid: Impr. Don Arturo Gongora, 1962.

García, Gregorio. Origen de los indios de el Nuevo Mundo, e Indias Occidentales. Segunda Edición. Colección: Fondo Antiguo. Madrid: En la imprenta de F. Martinez Abad, 1729. 336p.

Humphreys, Colin; Wadington, Graeme. Solar eclipse of 1207 BC helps to date pharaohs. Astronomy & Geophysics 2017; 58(5):5.39–5.42.

Ixtilxochitl, Fernando de Alva Cortés. Historia Chichimeca. 1640.

Jennings, Hargrave. Ophiolatreia: An Account of the Rites and Mysteries Connected With the Origin, Rise and Development of Serpent Worship. Capítulo 6. Privately Printed, 1889. 103p. Disponível em: https://archive.org/details/ophiolatreiaacco00nppr

Montesinos, Fernando de. Memorias antiguas historiales y políticas del Perú. Madrid : Impr. de M. Ginesta, 1882. 259p.; esta primeira obra foi copiada de um manuscrito do ano 1644 que se encontra na biblioteca da Universidade Sevilla e cujo título é: “Ophir de España; mémorias historiales políticas del Pirv…”.

Nuttall, Zelia. The Fundamental Principles of Old and New World Civilizations. Vol. 2. Cambridge, Mass.: Peabody Museum of American archaeology and ethnology, 1901. 602p. Disponível em:https://archive.org/stream/fundamentalprin02nuttgoog#page/n14/mode/2up

Pizarro, Pedro. Descubrimiento y conquista del Perú, seguida de la relación sumaria acerca de la conquista por el Padre Fr. Luis Naharro, de la Orden de la Merced. Lima: Impr. y Libr. Sanmartí y Cía., 1917. 213p. Colección: Fondo Antiguo – Porras Barrenechea.

Poma de Ayala, Felipe Guamán. El Primer nueva corónica y buen gobierno. (1615/1616). Colección:      Fondo Antiguo.          La Paz: Instituto Tihuanacu de Antropología, Etnografía y Prehistoria, 1941. 1169p.

Sitchin, Zecharia. The Lost Realms. Livro 4 da série de Crônicas da Terra. Harper Collins, 1990, 298p. Capítulo 7 “o dia em que o Sol parou”.

Yitzchak, Hezi; Weistaub, Daniel; Avneer, Uzi. A sun in Gibeon, and a moon in the valley of Ayalon — Solar eclipse occurred on October 30, 1207 BC? Beit Mikra: Journal for the Study of the Bible and Its World 2017; 62(1):196-238. Disponível em: http://www.boker.org.il/meida/negev/desert_biking/personal/BM_61-2_196_238.pdf

Existia um único supercontinente antes do dilúvio?

Muitas pessoas têm curiosidade acerca da origem dos continentes. O planeta antes do dilúvio possuía ou não apenas um continente, o que atualmente os cientistas chamam de Pangeia? Este tema realmente é complexo e tem suscitado dúvidas entre os nossos leitores. Essas dúvidas foram, então, sintetizadas na forma de cinco questões norteadoras para a realização dessa entrevista concedida pelo geólogo e professor Dr. Marcos Costa à Origem em Revista.

Marcos Natal de Souza Costa é bacharel em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Mestre em Geologia Econômica também pela UFMG, onde estudou a aplicação de isótopos estáveis na pesquisa de depósitos de ouro. É Doutor em Geologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, também na área de Geologia Econômica, mas desta vez relacionada a minerais industriais. Trabalhou por 12 anos como geólogo prospector pesquisando áreas potenciais para depósitos de ouro. Está há 17 anos no Centro Universitário Adventista de São Paulo – UNASP dando aulas de Geologia, Paleontologia, Levantamento de Recursos Naturais e Ciência e Religião, além da coordenação do Núcleo de Estudo das Origens – NEO. Também é membro do Geoscience Research Institute Committe – GRICOM, comitê ligado à Conferência Geral da IASD, responsável pelo planejamento de estratégias e ações visando a expansão do criacionismo em todo mundo. Além disso, Dr. Marcos Natal é novo Presidente eleito da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) para o ano de 2018.

  1. Explique-nos o que é o Rodínia? Quando ele provavelmente teria sido formado?

De acordo com a geologia convencional Rodínia foi um supercontinente formado na passagem do Mesoproterozóico para o Neoproterozóico, há cerca de 1 bilhão de anos, tendo se fragmentado em torno de 750 milhões de anos. Alguns geólogos acreditam que Rodínia deu origem a outro supercontinente chamado Panótia, mas os dados não são conclusivos. Rodínia teria presenciado pelo menos duas glaciações, a Marinoana e a Sturtiana, ambas no Neoproterozóico. A identificação de glaciações no registro geológico é feita através de analogias com ambientes glaciais modernos, entre elas a presença de sulcos e pavimentos polidos e estriados formados durante o movimento dos mantos de gelo sobre o substrato rochoso. Os sedimentos acumulados nas geleiras dão origem a rochas denominadas tilitos e diamictitos. Estas são rochas sedimentares formadas por clastos e fragmentos de rochas pré-existentes de granulação variada, imersos em uma matriz areno-argilosa ou lamosa, semelhantes aos sedimentos observados nas geleiras atuais.

Do ponto de vista criacionista seria possível relacionar Rodínia com a porção seca mencionada no livro de Gênesis (Gn 1:9,10). Entretanto, isto deve ser feito com cuidado para não se confundir com outras colisões observadas no Pré-cambriano e que também deram origem a outros supercontinentes. O Pré-cambriano é uma parte importante do registro geológico não muito explorada na literatura criacionista. Vez e outra ouvimos dizer que o Pré-cambriano é formado por rochas cristalinas de composição granito-gnáissica. Nada mais equivocado. Os terrenos pré-cambrianos são muito diversificados e de geologia complexa devido a predominância do metamorfismo. Além das rochas graníticas, um conjunto variado de bacias sedimentares com características peculiares é observado desde a sua base, no Arqueano até o final, no Proterozoico. Este conhecimento tem implicações importantes para o dilúvio bíblico, pois em determinados locais é praticamente impossível identificar a transição do Pré-cambriano para o Fanerozoico, porção da coluna geológica situada logo acima e dividida nas eras paleozoica, mesozoica e cenozoica.

  1. Em que período do dilúvio a Pangeia foi formada? E onde, nesta perspectiva, podemos encaixar a Laurásia Gondwana?

Ainda segundo a geologia convencional, Pangeia foi um supercontinente formado entre 300 Ma a 250 Ma, no final do Paleozoico, através da colisão de blocos continentais menores, estando cercado em todos os lados pelo grande oceano Pantalassa. Pangeia manteve-se íntegro até o Jurássico, quando começou a se fragmentar, primeiramente em dois grandes blocos, Laurásia e Gondwana, formando entre eles o mar de Tétis (hoje Mar Mediterrâneo). Em seguida, no Cretáceo, Gondwana se fragmenta, originando os continentes que conhecemos hoje.

Boa parte dos cientistas criacionistas considera o Fanerozoico como produto da sedimentação ocorrida durante o dilúvio. Neste cenário, a formação e fragmentação de Pangeia teria ocorrido aproximadamente no meio da grande inundação. As bacias sedimentares paleozoicas, que corresponderiam às partes iniciais do dilúvio, teriam se formado quando os blocos continentais que deram origem à Pangeia (Laurásia e Gondwana) ainda estavam separados. O Cenozoico, situado na porção superior da coluna geológica, constituiria a sedimentação ocorrida após o dilúvio, o que já é um consenso entre a maioria dos criacionistas.

Entretanto, há outros cientistas criacionistas que consideram a maior parte dos sedimentos depositados durante o dilúvio como equivalente à Era Mesozoica. Neste cenário, os sedimentos da Era Paleozoica, na sua maior parte, seriam pré-diluvianos, ou seja, teriam depositado entre a semana da criação e o dilúvio. No livro Understanding Creation traduzido para o português como Mistérios da Criação e publicado pela Casa Publicadora Brasileira em 2013, o Dr. Roberto Biaggi escreve:

“Tem-se proposto que a coluna geológica se formou como resultado de um evento catastrófico único. No entanto, agora sabemos que o registro geológico é muito mais complexo do que um único evento poderia produzir. Com base nos dados, um cenário razoável sugere que parte da porção inferior do registro consiste de rochas anteriores ao dilúvio global, as quais não chegaram a ser completamente alteradas ou erodidas pela catástrofe. Da mesma maneira é muito provável que uma porção superior da sequência represente os estratos e os processos que ocorreram após o dilúvio. Desta maneira, uma quantidade significativa de atividade geológica estaria representada em rochas pré-diluvianas e pós-diluvianas.”

Quando o Dr. Biaggi afirma que “o registro geológico é muito mais complexo do que um único evento poderia produzir”, ele está se referindo, mais apropriadamente, ao registro sedimentar do Fanerozoico. Segundo ele, é bem plausível que parte das bacias sedimentares, mais especificamente as do Paleozoico, teriam se formado antes do dilúvio. Isto faz certo sentido porque é difícil imaginar que no período de cerca de 2.500 anos entre a semana da criação e o dilúvio não houvesse a formação de nenhum depósito sedimentar, por menor que seja. Este modelo explicaria mais facilmente a formação e fragmentação de Pangeia no início do dilúvio, o que na geologia padrão corresponderia ao final da Era Paleozoica.

Sobre os continentes, o que teria ocorrido no episódio do dilúvio teria sido a fragmentação de Pangeia, dando origem aos continentes que conhecemos hoje. Sobre Rodínia, como mencionamos, ele teria sido formado na semana da criação em função dos atos criativos de Deus. A geologia ainda não tem dados suficientes sobre o que ocorreu com Rodínia até a formação de Pangeia. Ele poderia ter se fragmentado em vários núcleos continentais menores ou não. Sabemos que houve orogenias no Paleozoico como a Apalachiana e a Uraliana e o entendimento destes fenômenos é um ponto importante nos modelos criacionistas. Por outro lado, os 2.500 anos que separam um supercontinente do outro não seria um tempo absurdamente curto para o desmembramento do primeiro e configuração do segundo e o processo através do qual isto ocorreu não seria necessariamente catastrófico, como no caso do dilúvio. Um melhor entendimento da tectônica global em termos criacionistas pode trazer maiores esclarecimento sobre o assunto.

  1. Quais as evidências científicas geológicas da formação da Pangeia?

O mecanismo responsável pela formação de Pangeia e de outros continentes é a tectônica de placas. Dois processos são importantes neste contexto, a expansão do assoalho oceânico, que dá origem aos limites divergentes de placas tectônicas e a colisão de blocos continentais, que formam os limites convergentes. Um terceiro limite, denominado limites transformantes ou conservativos ocorre quando uma placa desliza em relação a outra. O exemplo mais típico é a Falha de San Andreas na Califórnia, onde a placa Norte Americana desliza tangencialmente à placa do Pacífico, sendo responsável por terremotos devastadores naquela região. Os limites convergentes compreendem três tipos de colisões: colisão continente-oceano, colisão oceano-oceano e colisão continente-continente. Estas colisões deixam cicatrizes profundas na crosta terrestre, denominadas suturas. Estas suturas constituem cinturões dobrados e muito deformados, com imbricamento de rochas de natureza diversa, inclusive restos de crosta oceânica. Os Himalaias, por exemplo, correspondem a uma colisão do tipo continente-continente, os Andes, a uma colisão do tipo continente-oceano e o arquipélago japonês a uma colisão do tipo oceano-oceano.

No caso de Pangeia, por se tratar de um bloco continental mais antigo, parte destas estruturas foram erodidas e deixaram suas marcas no substrato rochoso. Assim, no decorrer da Era Paleozoica, a acreção de pequenos blocos litosféricos resultou em diversos movimentos orogênicos, entre eles a Orogenia Apalachiana (colisão entre Laurentia e Gondwana), observada atualmente na costa oriental da América do Norte, do Canadá ao sudeste dos Estados Unidos e a Orogenia Uraliana correspondendo à colisão do bloco da Sibéria com Laurêntia, hoje observado principalmente nos Montes Urais, entre Europa e Ásia. Em geologia, o termo orogenia se refere ao conjunto de processos responsáveis pela formação de montanhas.

  1. No modelo criacionista, quando ocorreu a deriva continental?

Se considerarmos o primeiro cenário, em que o Fanerozoico compreenderia todos os sedimentos depositados durante o dilúvio, a fragmentação de Pangeia teria ocorrido no final do Paleozoico, ou seja, aproximadamente no meio da grande inundação. Se considerarmos o segundo cenário em que os sedimentos diluvianos se depositaram a partir do final do Paleozoico até o Mesozoico, então a fragmentação de Pangeia teria ocorrido no início do dilúvio.

  1. Muitos criacionistas assumem que a deriva ocorreu nos dias de Peleg (120 anos após o dilúvio). Isso tem respaldo bíblico ou geológico?

Eu particularmente não acredito nesta hipótese. Seria distorcer muito o texto bíblico. Para os criacionistas, a deriva continental, cujo mecanismo principal foi a tectônica de placas, consistiu em um evento catastrófico de dimensões e consequências globais, envolvendo erupções vulcânicas de grande porte, terremotos avassaladores, tsunamis, etc, o que certamente provocaria inundações sem proporções e destruição em massa, tanto de seres humanos quanto dos demais seres vivos. Isto, com certeza, deixaria um registro facilmente reconhecido tanto pela geologia como pela arqueologia.

Entrevista originalmente publicada em 30/11/2017 na Origem em Revista.