Mês: fevereiro 2017

Criacionista sugeriu a seleção natural antes de Darwin

Edward Blyth

Ao contrário do que muitos pensam, os criacionistas não rejeitam a ideia de seleção natural.[1,2] Todavia, discordam dos evolucionistas a respeito da extensão das modificações que esse processo é capaz de produzir. Normalmente, coloca-se um sinal de igualdade entre seleção natural e macroevolução; apela-se à primeira para justificar a última. Os exemplos clássicos de evidências a favor evolução que encontramos em livros-texto tratam de variações em pequena escala, ou seja, de microevolução (como mudanças de cor, tamanho, resistência a antibióticos etc). Como os próprios autores evolucionistas admitem, a macroevolucão só pode ser inferida a partir de extrapolação.[3]

Pois bem, não é novidade que Darwin não foi o primeiro a tratar da seleção natural. James Hutton escreveu sobre o mecanismo em 1794, William Wells em 1818 e Patrick Matthew em 1831.[4] Segundo alguns autores, até mesmo William Paley teria antecipado o conceito seleção natural, em 1803.[5] Darwin afirmava ter tomado conhecimento da contribuição desses autores somente após a publicação de A Origem das Espécies, em 1859.[4]

Em 1835, Edward Blyth publicou um artigo no Magazine of Natural History [6] no qual se pode encontrar o mecanismo de seleção natural de forma surpreendentemente clara. Existem evidências históricas de que Darwin era um leitor do Magazine of Natural History,[7] mas não se pode afirmar com certeza que ele tenha lido o trabalho de Blyth antes de elaborar sua teoria.
Embora o termo seleção natural não seja utilizado explicitamente no artigo de Blyth, a ideia está indubitavelmente presente:
“É uma lei geral da natureza para todas as criaturas a propagação de sua própria semelhança: e isso se estende às minúcias mais triviais, para as mais tênues peculiaridades individuais; e assim, entre nós mesmos, vemos a semelhança de uma família sendo transmitida de geração em geração. Quando dois animais acasalam, cada um possuindo uma certa característica em comum, não importando o quão trivial ela seja, existe também uma tendência decisiva na natureza para que aquela peculiaridade se intensifique; e se a prole desses animais for separada, e se somente aqueles nos quais a mesma peculiaridade é mais aparente forem selecionados para reprodução, a próxima geração irá possuí-la em um grau ainda mais notável; e assim por diante, até que a longo prazo a variedade que designei de raça seja formada, podendo ser muito diferente do tipo original”.[6]
“Em um grande rebanho de gado, o touro mais forte afasta de si os indivíduos mais novos e mais fracos de seu próprio sexo, e permanece como o único mestre do rebanho; de modo que todos os jovens que venham a ser produzidos tenham sua origem naquele indivíduo que possui máxima potência e força física; e que, consequentemente, na batalha pela existência, foi o mais capaz para manter seu território, e defender-se de cada inimigo. De maneira similar, entre os animais que procuram sua comida por meio de sua agilidade, força, ou delicadeza dos sentidos, aquele melhor organizado deve sempre obter a maior quantidade; e deve, portanto, tornar-se o mais forte fisicamente, e assim ser habilitado, pela derrota de seus oponentes, a transmitir suas qualidades superiores a um número maior de descendentes”. [6]
Contudo, Blyth não sustentava que a seleção natural seria capaz de proezas como converter um urso em uma baleia, como Darwin sugeriu na primeira edição de seu livro mais famoso.[8] Blyth via esse mecanismo como um recurso que tinha por fim conservar as qualidades típicas de uma espécie:
“A mesma lei, portanto, que foi designada pela Providência para manter as qualidades típicas de uma espécie, pode ser facilmente convertida pelo homem em um meio de criar diferentes variedades; mas também está claro que, se o homem não preservar essas raças pelo controle do intercurso sexual, elas irão naturalmente retornar ao tipo original”. [6]
Em outras palavras, o mecanismo é o mesmo que Darwin publicaria 24 anos mais tarde – que tem como resultado a propagação das qualidades dos indivíduos mais aptos a se reproduzir – mas o efeito final, segundo Blyth, seria o de reestabelecer as variedades de animais aos seus tipos originais e não criar novas espécies sem limite aparente para as modificações. Diga-se de passagem, não é essa a posição defendida pelos criacionistas de hoje. Mas o ponto em questão aqui é a prioridade de Blyth sobre Darwin quanto ao mecanismo de seleção natural.
Edward Blyth, ao contrário de Darwin, não tentou descrever uma natureza sem um Criador. Blyth, como tantos outros cientistas importantes (desde muito antes de seu tempo até os dias atuais), reconheceu a origem de tudo:
“Existe, de forma muito estranha, uma diferença de opinião entre naturalistas quanto a serem essas mudanças sazonais um desígnio da Providência como uma adaptação a mudanças de temperatura, ou um meio de preservar as várias espécies de seus inimigos, pela adaptação de sua matiz às cores da superfície; (…) O fato é que elas respondem a ambos os propósitos; e elas estão entre aqueles impressionantes exemplos de planejamento, que tão claramente e fortemente atestam a existência de uma grandiosa e onisciente Primeira Causa”. [6]
Blyth pode ter errado com sua ideia de conservação. Mas Darwin também errou em outros pontos e principalmente ao propor o que hoje chamamos de macroevolução. Em um ambiente no qual o materialismo ganhava cada vez mais força, Darwin se tornou um ícone mundial. Como o próprio Richard Dawkins admite, “só depois de Darwin é possível ser um ateu intelectualmente satisfeito”.[9]   Edward Blyth foi praticamente lançado no esquecimento. Mas Alguém certamente se lembrará de que ele deu ao Criador a glória que lhe era devida.
“Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:32,33).
Referências:
[1]      G. Purdom, N.T. Jeanson, Understanding Natural Selection, Answers in Genesis, Https://answersingenesis.org/natural-Selection/understanding-Natural-Selection/. (2016).
[2]      P.G. Humber, Natural Selection – A Creationist’s Idea, Acts Facts. 26 (1997).
[3]      M. Riddley, Evolução, 3a. ed., Artmed, Porto Alegre, 2006.
[4]      P.N. Pearson, In retrospect: An Investigation of the Principles of Knowledge and of the Progress of Reason, from Sense to Science and Philosophy, Nature. 425 (2003) 665–665. doi:10.1038/425665a.
[5]      W.L. Abler, What Darwin knew, Nature. 426 (2003) 759–759. doi:10.1038/426759b.
[6]      E. Blyth, An Attempt to Classify the “Varieties” of Animals, with Observations on the Marked Seasonal and Other Changes Which Naturally Take Place in Various British Species, and Which Do Not Constitute Varieties, Mag. Nat. Hist. 8 (1835) 40–53.
[7]      J.E. Schwartz, Charles Darwin’s Debt to Malthus and Edward Blyth, J. Hist. Biol. 7 (1974) 301–318.
[8]      C.R. Darwin, On The Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Strugg;e for Life, Facsímile , Harvard University Press, Cambridge, 1859.
[9]      R. Dawkins, O Relojoeiro Cego, Companhia das Letras, São Paulo, 2001.
Pakicetus

Pakicetus, uma baleia com pernas?

A baleia fake da Science

“Estivemos ansiosamente antecipando alguma descoberta desse tipo, mas não estávamos preparados para uma evidência tão convincente da estreita relação faunal entre a Ásia oriental e a América do Norte ocidental tal como é revelado por esse diminuto espécime.”[1] Essas palavras aparecem logo na quinta linha do artigo publicado por Henry F. Osborn em 1922 na revista Science, no qual ele descreve o famoso homem de Nebraska. A evidência tão convincente à qual ele se referia era um dente de cerca de 1 cm. Apenas isso. No artigo, Osborn discute detalhadamente as características do dente que o levaram a concluir que ele havia pertencido a um ancestral do homem. Em 1927, a Science se viu obrigada a publicar uma retratação com o título “Hesperopithecus apparently not an ape nor a man” (Hesperopithecus, aparentemente nem macaco nem homem).[2] O restante do esqueleto ao qual pertencia o dente havia sido encontrado. Tratava-se de um javali extinto!

Mas a ciência vive de erros e acertos e, naturalmente, o tipo de abordagem que levou ao homem de Nebraska seria revisto no futuro para que não se repetisse tamanho vexame. Certo? Errado. As baleias que o digam.
A capa da edição de 22 de abril de 1983 da Science, 61 anos depois da publicação do homem de Nebraska, estampava um animal meio mamífero terrestre, meio baleia.[3] Na ilustração, o animal saía da margem de uma praia e mergulhava para buscar comida na água. Tratava-se do Pakicetus, nome dado à estranha criatura encontrada no Paquistão.
O Dr. Philip D. Gingerish, lider da pesquisa que apresentou o Pakicetus à comunidade científica, declarou na época que “o Pakicetus e outros cetáceos do início do Eoceno representam um estágio anfíbio na transição evolucionária gradual das baleias primitivas da terra para o mar.” [3] Mas o que era realmente conhecido a respeito do Pakicetus? Apenas fragmentos dos ossos do crânio. A partir deles, todo o crânio foi reconstruído e nele foram adicionadas características que não podiam ser deduzidas apenas com base nos fragmentes. Supôs-se que o Pakicetus possuísse olhos nas laterais da cabeça, como as baleias, e um respirador no topo do focinho. Esse respirador estaria a meio caminho da posição dos respiradores das baleias modernas. Supôs-se, ainda, que o Pakicetus possuísse nadadeiras, que não tivesse um pescoço visível (como nas baleias) e que podia tanto caminhar em terra como nadar no mar, como as baleias.
18 anos depois de o Dr. Gingerich ter encontrado os fragmentos do crânio do Pakicetus, outros 4 crânios parciais e 150 ossos de Pakicetus foram descobertos, permitindo que os cientistas construissem um esqueleto quase completo.[4] Com base nas novas descobertas, pôde-se concluir que o Pakicetus não se assemelhava nada com o animal que estampou a capa da Science em 1983. Ele na verdade possuía um nariz na extremidade do focinho, não um respirador de baleia, pés preparados para correr (não nadadeiras), pescoço longo e visível (não ausente, como nas baleias) e olhos no topo da cabeça (não nas laterais). Não seria um exagero chamar o Pakicetus de a “baleia de Nebraska”.
Mesmo assim, nos dias de hoje ainda se insiste em que o Pakicetus esteja na linha de ancestralidade dos cetáceos modernos com base em características como uma suposta semelhança entre suas bulas auditivas. Os cetáceos modernos possuem uma estrutura chamada de processo sigmoide, algo similar a um polegar estendido. Segundo o Dr. Zhe-Xi Luo, especialista em evolução de mamíferos, o Pakicetus não possuía um processo sigmoide na bula auditiva, mas simplesmente uma placa plana. Placas como essa são encontradas em mamíferos terrestres.[5]  Observe a figura ao lado e tire suas próprias conclusões.
A história toda de como esse animal acabou sendo chamado de baleia é um exemplo muito interessante de como a visão de mundo de um cientista possui um peso decisivo em suas interpretações, especialmente quando tentamos reconstruir a história de um passado do qual sobraram apenas alguns vestígios. Os fragmentos de crânio encontrados pelo Dr. Gingerinsh constituem os dados experimentais dos quais ele dispunha. O significado que ele atribuiu àqueles fragmentos foi pura interpretação baseada em sua visão de mundo evolucionista.
A mídia cientifica muito frequentemente nos apresenta os dados fósseis e sua interpretação evolucionista como um conjunto indissociável. Extrapolações e inferências são apresentadas como fatos incontestáveis e procura-se lançar ao ridículo aqueles que se atrevem a olhar para os mesmos dados com uma visão de mundo diferente. É preciso ter isso em mente quando nos forem apresentados os próximos homens-macaco e baleias com pernas.
Concepção artística atual do Pakicetus
Referências:
[1]    H.F. Osborn, Hesperopithecus, the first anthropoid primate found in America, Science, 55 (1922) 463–465. doi:10.1126/science.55.1427.463.
[2]    W.K. Gregory, Hesperopithecus apparently not an ape nor a man, Science, 66 (1927) 579–581. doi:10.1126/science.66.1720.579.
[3]    P.D. Gingerich, N.A. Wells, D.E. Russell, S.M.I. Shah, Origin of Whales in Epicontinental Remnant Seas: New Evidence from the Early Eocene of Pakistan, Science, 220 (1983) 403–406. doi:10.1126/science.220.4595.403.
[4]    J.G.M. Thewissen, E.M. Williams, L.J. Roe, S.T. Hussain, Skeletons of terrestrial cetaceans and the relationship of whales to artiodactyls, Nature. 413 (2001) 277–281. doi:10.1038/35095005.
[5]   C. Werner, Evolution: The Grand Experiment Vol. 1, 3rd ed., New Leaf Press, 2014.