Conforme artigo científico publicado recentemente na Academia Journal of Scientific Research, do qual eu sou um dos autores, existem cerca de 2 milhões de espécies vivas já catalogadas, sendo mais de 60 por cento delas insetos. Porém, as estimativas são a de que existam entre 9 e 100 milhões de espécies ainda não conhecidas.1 Ademais, há 300 mil espécies fósseis do cambriano/edicara ao pleistosceno. É um erro assumir que todas essas espécies entraram na arca.

Muitos, ainda hoje, interpretam de forma errada a palavra espécie, mal traduzida nas versões da Bíblia em português. Porém, o criacionista honesto entende que o termo bíblico  espécie nada tem que ver com a unidade básica de classificação utilizada hoje na Biologia moderna. Noé não foi instruído a embarcar dois exemplares de cada espécie, como se ele usasse nosso sistema taxonômico. Em vez disso, o termo correto, concebido por Frank Marsh em 1941, é conhecido por “baramin” que deriva do verbo hebraico bara (criado) e min (tipo) – referindo-se a tipos básicos criados.2 Portanto, como informa Gênesis 7:2, Noé deveria levar apenas um casal de todos os tipos básicos de animais imundos e sete pares de todos os tipos básicos de animais considerados puros. Logo, o “tipo” bíblico é o equivalente ao nível “família” da taxonomia moderna (veja a Figura 1).

 

Figura 1 – Tipos básicos equivalem ao nível família. Fonte: adaptado de Junker e Scherer (2002)

Conforme Gênesis 7:14, apenas animais terrestres e que voavam deveriam ser levados para dentro da Arca. Portanto, organismos marinhos deveriam ficar de fora, e não há consenso se seria necessário levar insetos a bordo (embora houvesse espaço suficiente para eles). Em 2013, cálculos apresentados em um estudo realizado por estudantes do departamento de física da Universidade de Leicester demonstraram que a Arca de Noé poderia flutuar com 70 mil animais a bordo.Embora não tenha havido necessidade de entrada de tantos animais assim conforme atualização das estimativas que mostraremos adiante.

Antes, é necessária uma contextualização a partir de uma retrospectiva a fim de entendermos quais foram os esforços criacionistas até aqui, diante das evidências científicas disponíveis para cada época, para montar o cenário ideal relativo ao número mais realista e aos tipos de animais levados a bordo na arca.

Segundo o Dr. Marcus Ross, geólogo e diretor assistente do Centro de Estudos de Criação da Liberty University, “a primeira tentativa significativa foi feita pelo matemático francês Johannes Buteo (1492-1564). Ele passou por todos os animais, incluindo os até então conhecidos da recém-descoberta América do Norte e do Sul. Ele estimou cerca de 100 “tipos” totais, ou 300 indivíduos (juntamente com 3.650 ovelhas para alimentar os carnívoros no navio). Todos estes eram mamíferos, porque ele não achava necessário contar os répteis e as aves separadamente, o que poderia encontrar espaço mais facilmente. (Ele não sabia sobre os dinossauros!).”.4

Em 1961, John Whitcomb e Henry Morris publicaram o livro The Genesis Flood onde calcularam o numero de animais que teriam entrado na arca. Conforme menciona o reverendo Walter Lang (in memoriam), ex-diretor executivo da Bible-Science Association, “Whitcomb e Morris excluíram todas as formas de vida marinha e agruparam as demais em 35.000 espécies, reconhecendo a habilidade de diversificação das espécies principais. Considerando o tamanho médio dos animais como sendo do tamanho de uma ovelha, eles calcularam que 240 animais poderiam ter sido abrigados em um espaço do tamanho de um vagão de trem. A Arca, por sua vez, tinha espaço suficiente para abrigar o conteúdo de 522 vagões. Assim sendo, seriam necessários apenas 146 vagões para comportar todas as 35.000 variedades de animais, deixando dois terços da Arca para armazenamento de comida, água, etc.”.5

De lá para cá, nossa compreensão da biologia cresceu de forma constante, levando-nos mais perto do número verdadeiro. Agora, por exemplo, sabemos mais sobre a diversidade total de animais terrestres. Também aprendemos que muitas espécies podem pertencer ao mesmo tipo. Se as espécies podem se cruzar e produzir híbridos, presume-se que elas descenderam de um par de animais na Arca que poderiam se cruzar.4

Em 1996, um estudo foi desenvolvido por John Woodmorappe e publicado em seu livro técnico Noah’s Ark: A Feasibility Study.6 Por causa do argumento, Woodmorappe escolheu o ranking taxonômico logo acima de espécie – o gênero. Ele estimou que aproximadamente 16 mil animais vertebrados terrestres (que consistiam em quase 8 mil gêneros de répteis, mamíferos e pássaros) estavam a bordo. No entanto, estudos recentes no campo de estudo criacionista chamado de Baraminologia indicaram que os “tipos” equivalem geralmente ao nível de família na taxonomia moderna.7

Quando o instituto criacionista norte-americano Answers in Genesis (AiG) decidiu construir e avançar com o projeto Ark Encounter (Arca de Noé em tamanho real localizada em Kentucky, EUA), a equipe do AiG precisava analisar novamente os “tipos da Arca”. Em parceria com outros cientistas criacionistas, a equipe Ark Encounter está trabalhando para uma contagem e descrição completas dos “tipos” provavelmente representados na arca.

Ark Encounter

Na primeira fase do projeto, em 2011, o geólogo Dr. Marcus Ross publicou um estudo na Journal of Creation Theology and Science, Series C, que apresentou dados preliminares de estimativa do número de famílias vivas e extintas com base em referências principais.8 Esse artigo sugeriu 719 tipos totais de mamíferos, répteis terrestres e aves, porém deixou de fora os anfíbios.

A equipe Ark Encounter apenas começou a publicar a estimativa final dos “tipos” da arca na literatura criacionista revisada por pares há pouco tempo. Em 2012, Jean Lightner, especialista em baraminologia e professora adjunta da Liberty University, publicou o primeiro artigo na Answers Research Journal.9 Esta pesquisa obteve uma estimativa realista dos tipos de mamíferos (classe mammalia) que teriam sido representados na Arca. Examinando informações sobre espécies vivas hoje, foi estimado que os mamíferos representam 137 tipos criados. Dado o número de famílias de mamíferos extintas conhecidas a partir do registro fóssil, o número real na arca poderia ter sido facilmente superior a 300.

Figura 2 – Comparação entre número de espécies vivas e tipos básicos baseados em gêneros e famílias. Fonte: Ross (2013)

Conforme revela o geólogo Dr. Marcus Ross, “até agora, a estimativa atual de famílias de vertebrados vivos e extintos encontrada no estudo é de cerca de 950 [ver a figura 2]. Enquanto continuaremos a avaliar essas famílias para ver se elas deveriam ser divididas ou combinadas com outras famílias para nossa estimativa final dos “tipos”, 950 famílias são uma boa aproximação. Dado que a maioria dos animais foi trazida para a arca em dois exemplares, enquanto aves e mamíferos “puros” foram trazidos em sete exemplares, isso significa que Noé cuidou de aproximadamente dois mil animais vertebrados.”.4

Porém, fato é que o estudo ainda não foi concluído e, portanto cabe a nós esperarmos o número total final. Outros artigos ainda serão publicados e cada artigo discutirá os métodos, os números resultantes de “tipos” para cada grupo de animais e as descrições de cada um deles. Combinados, esses trabalhos ajudarão a equipe da Ark Encounter a representar fielmente essas criaturas na réplica em grande escala da arca de Noé.

Texto originalmente publicado em 26/10/2017 na Origem em Revista.

Referências: 

  1. Neto SG, Alves EF, Almeida MC. Speciation in real time and historical-archaeological and its absence in geological time. Acad. J. Sci. Res. 2017; 5(7):188-196.
  2. Frair W. Baraminology: Classification of Created Organisms. CRSQ Quarterly. 2000; 37(2):82-91.
  3. Youle O, et al. The animals float two by two, hurrah! Journal of Physics Special Topics 2013; 12(1):1-2.
  4. Ross M. No Kind Left Behind: Recounting the Animals on the Ark. Answers magazine 2013:8(1):27-29.
  5. Whitcomb JC, Morris HM. The Genesis flood: The BiblicalRecord and its Scientific Implications. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing , 1961.
  6. Woodmorappe J. Noah’s Ark: A Feasibility Study. Santee, CA: Institute for Creation Research, 1996.
  7. Wood TC, Garner PA. Genesis Kinds: Creationism and the Origin of Species. CORE Issues in Creation2009; 5:129-161.
  8. Beech S, Ross MR. A Preliminary (Re-)estimation of the Ark Kinds. Journal of Creation Theology and Science, Series C(Geology) 2011; 2:1.
  9. Lightner JK. Mammalian Ark Kinds. Answers Research Journal2012; 5:151-204.

Mestre em Ciências (Imunogenética) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Pós-graduando em Biotecnologia (Biologia molecular) pela mesma Universidade. Autor de dezenas de publicações em diversos periódicos científicos na área Biomédica. Membro da Sociedade Brasileira do Design Inteligente (SBDI) e autor do livro “Teoria do Design Inteligente: evidências científicas no campo das ciências biológicas e da saúde”. É membro fundador do Núcleo Maringaense da SCB (Numar-SCB) e ex-Diretor de Ensino do Núcleo (2015-2017). A frente do Departamento de Ensino, foi o Idealizador/coordenador do Programa “Diálogo sobre as Origens” (2016-2017). Atualmente, é Cofundador e Editor-chefe da Origem em Revista.