A edição de julho da revista Conexão 2.0, traz o artigo “No que a Bíblia se antecipou à ciência”, assinado pelo Diretor de Ensino do Numar-SCB,  Everton Fernando Alves. De maneira didática e ilustrada, Everton aponta 10 descobertas científicas a respeito da natureza, que já haviam sido mencionadas na Bíblia.

De acordo com o Mestre em Ciências, “embora a Bíblia não seja um livro científico, apresenta inúmeras declarações sobre fenômenos da natureza ou afirmações científicas que a ciência vem descobrindo dia após dia.” Everton explica que os assuntos científicos nem sempre são fáceis de serem compreendidos, e que devemos ter em mente que a Bíblia não é o único livro inspirado por Deus. “Publicações como a revista Conexão 2.0 são uma ponte de diálogo entre a Sociedade Criacionista Brasileira e o público que deseja aprender mais sobre os fundamentos do criacionismo”, finaliza Alves.                    

Sobre a revista:

Voltada para o público jovem, a revista Conexão 2.0 tem tiragem de 30 mil exemplares e publicação trimestral, pela Casa Publicadora Brasileira (CPB). A cada edição, traz textos, reportagens e entrevistas com o objetivo de informar e esclarecer dúvidas a respeito do cristianismo.

Se você ainda não conhece, clique no link e saiba como ter aceso à revista:  

http://conexao.cpb.com.br/

Teorias são periodicamente substituídas (Parte 2)

Nesta segunda parte do texto, especificamente, entraremos de fato no tema contido no título do artigo. A seguir, apresentarei a visão de alguns filósofos da ciência que defendem a substituição de teoria inteiras, ou paradigmas, a fim de que haja efetivamente o progresso da ciência e mostraremos um caso interessante de uma teoria substituída e registrada na história da ciência. Em seguida, analisaremos a luz de comentários de cientistas e filósofos da ciência, o estágio em que se encontra o neodarwinismo e os sinais de tendências a respeito dessa teoria.

Teorias podem ser substituídas?

Não só podem como devem ser substituídas, de acordo com o filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). Seu trabalho relacionado, principalmente, ao processo de substituição de uma teoria ou um paradigma por outro incidiu sobre a história da ciência e a filosofia da ciência, tornando-se um marco no estudo do processo que leva ao progresso científico. Esse processo de substituição de teorias é explicado em seu livro The Structure of Scientific Revolutions .[1]

Kuhn reconhecia que os fatos se acumulam frequentemente um sobre o outro, mas, de acordo com ele, a ciência, realmente, faz um grande salto de progresso quando uma teoria é inteiramente substituída por outra em uma revolução científica e a ciência passa a trabalhar dentro daquele novo paradigma.[2]

Muitos livros didáticos nos contam quem e quando foram descobertas as novidades científicas, mas deixam de nos contar muito a respeito do processo de descoberta. Podemos tomar como exemplo o processo de transição do conhecimento entre a teoria do flogístico e a teoria da combustão.

Para Kuhn, precisamos avaliar uma teoria antiga (no caso, a teoria do flogístico) à luz dos fatos e conceitos conhecidos em sua época, não em comparação com a nossa ciência atual.[1] A teoria do flogístico foi desenvolvida pelo químico e médico alemão Georg Ernst Stahl entre 1660 e 1734.

De acordo com essa teoria, tudo tem ou o calórico ou o flogístico (um tipo de matéria), um dos quais se perde quando a substância queima.[2] Se for um metal que queima, ele perderia o flogístico (que teria uma massa negativa) e, portanto, ficaria pesado. O calórico, por outro lado, teria uma massa positiva; por isso, sob esta perspectiva, substância que se desintegram e perdem massa quando queimadas, tais como papel ou madeira, perderiam o calórico em vez do flogístico.

Outro velho conceito relacionava-se às substâncias ácidas que eram entendidas, pelos cientistas do passado, como moléculas que tinham pequenos ganchos sobre elas, enquanto que as bases tinham pequenos buracos. Diziam, portanto, que ambos tinham sabor desagradável porque os ganchos picavam as papilas gustativas e os buracos tinham arestas ásperas que as arranhavam. Quando ácidos e bases eram associados, os ganchos entravam nos buracos, neutralizando um ao outro. Isso fazia parte da teoria química com a qual Joseph Priestley e Antoine Lavoisier trabalhavam no século XVIII.

Eles não conheciam nossa tabela periódica dos elementos nem as reações de oxidação. Quando Pristley coletou aquele novo tipo de gás (oxigênio), chamou-o de ar sem a sua quantidade normal de flogístico. Lavoisier fez os mesmos experimentos e disse que a nova substância era um princípio atômico de acidez e formava um gás somente quando esse princípio tinha se unido ao calórico. É claro que isso nada se parece com aquilo que aprendemos numa aula de química hoje, né? Priestley jamais compreendeu o que tinha descoberto. Ele não sabia que tinha descoberto um novo gás chamado oxigênio e nunca aceitou a teoria da combustão com oxigênio.

Lavoisier, por outro lado, abordou esse experimento a partir de uma cosmovisão diferente. Ele estava pronto para questionar as próprias bases da teoria química. Estava convencido de que a queima de objetos absorvia alguma coisa da atmosfera. Ele não descobriu apenas um novo fato, ajustando-o dentro de uma teoria existente; mais do que isso, sua descoberta levou ao desenvolvimento da teoria da combustão com oxigênio, uma nova teoria que levou à reformulação da química e derrubou a teoria do flogístico.

Sobre isso, o paleontólogo Dr. Leonard Brand, diretor do departamento de ciências naturais da Universidade de Loma Linda, nos explica que

“Um texto de química, escrito por Linus Pauling (1964), relata que Lavoisier propôs uma nova teoria da combustão, sugerindo que, naquela época, ocorreram mudanças reais no pensamento. Essa é toda a história que conseguimos obter nos livros-texto de ciências. Eles presumem, geralmente, que os cientistas de outrora pensavam como nós, e que algumas velhas idéias que alguns desses cientistas ajudaram a substituir eram apenas superstição e não, realmente ciência. Contudo, essa visão parece não funcionar. As velhas maneiras de pensar não podem ser sempre chamadas de superstição ou mitos. Um estudo mais cuidadoso revela que aqueles cientistas de antigamente estavam, frequentemente, usando métodos de pesquisa semelhantes aos que usamos hoje. [...] Teorias obsoletas não eram necessariamente não-científicas. Elas foram, simplesmente, substituídas por outras teorias científicas.”.[2: p.48]

Portanto podemos tirar como exemplo dessa situação que, uma teoria que é aceita em uma determinada época tem muito a ver com o pensamento “científico” da sociedade que influenciou aquela geração e com a experiência e a cosmovisão de seus pesquisadores. Nesse caso, em particular, vemos que o progresso não ocorreu pela adição de um fato sobre o outro; mas, sim, aconteceu quando um paradigma inteiro foi substituído por outro.

Observando o problema pelos olhos dos pioneiros da ciência e à luz da experiência dos últimos séculos, notamos em retrospecto que nenhuma das teorias que precisaram ser substituídas encaixava-se nos critérios dos pioneiros. A rigor, eram estruturas conceituais essencialmente qualitativas sem a estrutura formal que uma teoria científica precisa ter para merecer esse nome. Por outro lado, as teorias que obedeciam a esses critérios permanecem válidas dentro de seus limites até hoje. Elas funcionam e isso não muda com o tempo.

Agora, quando colocamos a teoria sintética da evolução (também chamada de neodarwinismo) sob as lentes do microscópio, será que realmente entendemos que ela se encaixa dentro do conceito de paradigma, que veio pra ficar, ou ela está a passos de servir apenas como um plano de fundo (como a teoria do flogístico) para um novo processo de revolução científica para a próxima geração de pensadores que está surgindo?

O neodarwinismo é científico?

Para Karl Popper (1902-1994), filósofo da ciência austríaco e professor emérito de Filosofia da Universidade de Londres, pai da falseabilidade e do racionalismo crítico, o progresso científico se dá a partir do momento em que aprendemos com os nossos erros de forma sistemática.

Segundo Popper, um cientista deve desenvolver uma teoria, testar essa teoria e a sustentar, se puder. Alguém que discordar, criticará os seus resultados e a sua lógica. É essa crítica que contribuirá para a objetividade na ciência. Diante de todo esse exposto acerca da importância de uma teoria para a ciência, ele faz uma afirmação contundente:

“Tenho chegado à conclusão de que o darwinismo não é uma teoria científica testável, mas um programa de pesquisa metafísico, um possível plano de referência para teorias científicas testáveis”.[3: p.168].

Em outras palavras, o que Popper quis dizer é que o neodarwinismo, no contexto da origem da vida, não é científico, porque não é falsificável (testável). Embora tenha sido forçado a se retratar após essa afirmação – devido à forte pressão da comunidade científica −, Popper realmente não se arrependeu do que afirmara [4, 5].

Nesse contexto, o filósofo da ciência Dr. Del Ratzsch, em seu livro The Battle of Beginnings, afirma que certas teorias não baseadas na verdadeira ciência

“não podem ser geradas por meios puramente lógicos ou puramente mecânicos a partir de dados empíricos”, mas são “resultado de criatividade e invenção”. Para ele, “cientistas frequentemente continuam a defender firmemente certas teorias mesmo diante de clara evidência contrária.”

Por sua vez, e como vimos no artigo anterior, o biólogo evolucionista germano-americano Ernst Mayr (1904–2005) escreveu sobre a filosofia da biologia, como por exemplo:

Nenhum princípio da biologia histórica jamais poderá ser reduzido às leis da física ou da química [se referindo à hipótese da evolução química da vida, ‘Mundo RNA’].[6: p.79]

 Ele afirmou que existem componentes filosóficos dentro da Biologia, e dividiu este campo em dois ramos fundamentais que não deveriam ser confundidos: um pertence à biologia funcional (situa-se no campo do naturalismo metodológico) e o outro se refere à biologia histórica/evolutiva (ou naturalismo filosófico).[7] Enquanto que na biologia funcional a experimentação científica é frequentemente utilizada, a biologia evolutiva é caracterizada por cenários imaginários, narrativas hipotéticas sobre a origem da vida onde a experimentação não ocorre.[6]

Ainda sobre a origem da vida no contexto da bioquímica, Franklin Harold, um dos principais microbiologistas evolucionistas do mundo admitiu a contragosto que,

“não existe atualmente qualquer relato darwiniano detalhado da evolução de qualquer sistema bioquímico ou celular, apenas uma série de especulações fantasiosas”.[8: p.205].

Mas, e em relação à cientificidade do neodarwinismo acerca da origem da vida no registro fóssil? Em 1969, Gareth Nelson, um especialista em fósseis do Museu Americano de História Natural de Nova York, escreveu:

“A ideia que alguém possa ir ao registro fóssil e esperar recuperar empiricamente uma sequência ancestral-descendente, seja de espécies, gênero, famílias, ou seja o que for, tem sido, e continua sendo, uma ilusão perniciosa.”[9]

Henry Gee, editor sênior da revista Nature, escreveu em 1999 que:

“Pegar uma série de fósseis e afirmar que ela representa uma linhagem não é uma hipótese científica que possa ser testada, mas uma afirmativa que carrega a mesma validade de uma história para dormir – entretém, talvez até seja instrutiva, mas não é científica.”[10: p.116-117]

Para concluir este tópico, faço minhas as palavras do zoólogo Dr. Ariel Roth, ex-professor Adjunto dos departamentos de Ciências Biológicas e de Geologia da Universidade de Loma Linda (EUA):

“A teoria da evolução é um exemplo primário do domínio de um paradigma que tem perdurado mesmo quando a evidência para respaldá-lo é frequentemente difícil de encontrar. Em particular, essa persistência assinala que nem tudo está bem com a ciência. [...] Como a ciência se meteu nesse quebra-cabeças de defender uma ideia com pouca sustentação e com tantos problemas científicos?”.[11: p.323]

Há indícios de que o neodarwinismo possa ser substituído?

No Brasil, desde 1998 o historiador da ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho vem expondo a falência epistêmica da teoria da evolução de Darwin através da seleção natural junto às editorias de ciência e com alguns jornalistas científicos de renome. Para ele, essa mudança era um ruído óbvio, pois

“até Darwin, já em 1859 considerava a seleção natural um mecanismo muito importante, mas não o único mecanismo evolutivo”.[12]

Em 2014, conforme divulgou Enézio:

“a Nomenklatura científica já está elaborando uma nova teoria geral da evolução que, para desespero de Darwin e discípulos, não será selecionista, mas incorporará aspectos neo-lamarckistas – a Síntese Evolutiva Ampliada ou Estendida, que será lançada em 2020.”.[13, 14]

Pois bem, assim como Enézio previu, em 7-9 de novembro de 2016 a Royal Society (mais antiga sociedade científica do mundo) realizou um encontro em Londres intitulado New Trends in Evolutionary Biology: Biological, Philosophical and Social Science Perspectives para discutir a mudança paradigmática em evolução.[15] As reivindicações de revisão da teoria padrão feitas por algumas áreas relacionadas à biologia evolutiva foram analisadas e agora é esperar até 2020, ano que a Síntese Evolutiva Ampliada será anunciada.

Sabemos conforme anunciou Kevin Laland, biólogo evolutivo e um dos organizadores do encontro na Royal Society, que

“Uma questão em discussão foi se o núcleo explicativo da biologia evolutiva requer ou não atualizações à luz dos recentes avanços em evo-devo, epigenética, ecologia do ecossistema e em outros lugares.”.[16: p.316]

Enquanto isso permanece um enorme vácuo teórico na biologia evolutiva que, a propósito, continuará sendo ensinada nas salas de aula como se nada tivesse ocorrido.

Como Enézio bem resumiu, “essa reunião na Royal Society espelha a quantas anda em areias epistemológicas movediças a teoria evolucionária.” Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que demorou tanto tempo para essa admissão de mudança por parte da comunidade evolutiva? Talvez o motivo esteja ligado ao que o próprio biólogo evolutivo Kevin Laland lamentou uma vez que os cientistas evolucionistas autocensuram suas críticas ao neodarwinismo a fim de evitar a aparência de estar dando crédito científico à teoria do Design Inteligente:

“A mera menção da síntese evolucionária estendida geralmente evoca uma reação emocional, mesmo hostil, entre os biólogos evolutivos. Muitas vezes, as discussões vitais descem em acrimonia, com acusações de confusão ou deturpação. Talvez assombrados pelo espectro do design inteligente, os biólogos evolucionários desejam mostrar uma frente unida para aqueles hostis à ciência. Alguns podem temer que receberão menos financiamento e reconhecimento se intrusos - como fisiologistas ou biólogos do desenvolvimento - inundarem seu campo.”.[17]

Essa previsão do Enézio e toda a movimentação da Academia apenas confirmam os comentários do Dr. Leonard Brand acerca do tempo de vida das teorias:

“as teorias têm um período de vida. [...] No decurso de toda a história da ciência, uma teoria média tem duração de 300 anos. Agora, durante os últimos cem anos, considerando que a ciência muda mais rapidamente, a duração será muito mais curta.”.[2: p.31]

Porventura é chegado, enfim, o tempo de vida do neodarwinismo? Aguardemos os últimos capítulos dessa história...

Nota: Texto publicado originalmente em 27/06/2017 na Origem em Revista.

 Referências:

[1] Kuhn TS. The Structure of Scientific Revolutions. 2. Ed., Enlarged. Londres: The University of Chicago Press, 1970.

[2] Brand L. Fé, Razão e História da Terra. Tradução Haller Elinar Stach Schuneman, Eliseu Nevil Menegusso. São Paulo: UNASPRESS, 2005. 340p.

[3] Popper KR. Unended Quest: na intellectual autobiography. La Salle, IL: Open
Court Press; 1976.

[4] Popper KR. Unended Quest: na intellectual autobiography. La Salle, IL: Open Court Pub Co; 1982, Revised Edition.

[5] Horgan J. Dubitable Darwin? Why Some Smart, Nonreligious People Doubt the Theory of Evolution. Blog Scientific American, 2010. Disponível em: http://blogs.scientificamerican.com/cross-check/dubitable-darwin-why-some-smart-nonreligious-people-doubt-the-theory-of-evolution/

[6] Mayr E. What makes biology unique? Considerations on the Autonomy of a Scientific Discipline. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2004.

[7] Souza Junior NN. Filosofia das Origens: Uma Introdução à Controvérsia Criacionismo x Evolucionismo. Acta Científica. Ciências Humanas 2010; 2(19):9-22.

[8] Harold F. The Way of the cell. Nova York: Oxford University Press, 2001.

[9] Nelson GJ. Ontogeny, Phylogeny, Palaeontology and the Biogenetic Law.  Presentation to the American Museum of Natural History (1969). In: Williams DM, Ebach MC. The reform of palaeontology and the rise of biogeography – 25 years after ‘Ontogeny, phylogeny, palaeontology and the biogenetic law’ (Nelson, 1978). Journal of Biogeography 2004;31(5): 685-712.

[10] Gee H. In Search of Deep Time. New York: Free Press, 1999, p. 5, 32, 113-117.

[11] Roth A. Origens. Tradução: Azenito G. Brito. 2. Ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2016.

[12] Almeida Filho EE. Olha os 16 de Altenberg aí, gente! Desafiando a Nomenklatura científica, 2009. Disponível em: http://www.pos-darwinista.blogspot.com.br/2009/03/olha-os-16-de-altenberg-ai-gente.html

[13] Almeida Filho EE. Lamarck parcialmente correto, para desespero de Darwin. Deafiando a Nomenklatura Científica, 2014. Disponível em: http://pos-darwinista.blogspot.com.br/2014/05/lamarck-parcialmente-correto-para.html

[14] Mazur S. The Altenberg 16: An Exposé of the Evolution Industry. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2010.

[15] Mazur S. Royal Society Meeting to Discuss Evolution Paradigm Shift, What That Means for Science and for All. The HuffingtonPost (25 dez. 2015). Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/suzan-mazur/royal-society-meeting-to_b_8876462.html?utm_hp_ref=science&ir=Science

[16] Laland KN. Schism and Synthesis at the Royal Society. Trends in Ecology and Evolution 2017;32(5):316–317.

[17] Laland K, et al. Does evolutionary theory need a rethink? Nature. 2014;514(7521):161-4.


Teorias são periodicamente substituídas (Parte 1)

Tenho visto ao longo do tempo muita gente confundindo alguns termos tais como hipótese, teoria e método científico, que são termos importantes de serem compreendidos, quando tratamos de ciência. Portanto, antes de adentrarmos no tema abordado no título deste artigo, vou apresentar, nesta primeira parte, alguns conceitos importantes.

Definindo alguns conceitos

Para iniciar, apresentarei mesmo a contragosto, os conceitos de hipótese, teoria e método científico comumente utilizados na Academia, apesar de serem conceitos populares parcialmente equivocados (já apresento o spoiler) e estarem longe dos conceitos ideais entendidos pelos pioneiros da ciência, mas que podem, ao mesmo tempo, contribuir em muito na compreensão do porque algumas teorias ditas “científicas” se mantém como paradigma mesmo quando lhes faltam evidências para suporte. Vamos lá...

Conceitos equivocados, porém amplamente divulgados:

Encontramos nos livros atuais de metodologia científica que a hipótese científica antecede o experimento e consiste em formular uma afirmação razoável como possível resposta provisória para um problema de pesquisa, antes de realizá-la efetivamente.[1, 2] Hipóteses são comprovadas e refutadas o tempo todo, ou seja, uma hipótese precisa ser testada e retestada muitas vezes e em condições controláveis, antes que ela seja aceita na comunidade científica como sendo verdadeira.

Já uma teoria científica tem um caráter explicativo e consiste em um conjunto de hipóteses que foi testado e retestado e suportado nesses testes repetitivos. Para continuar a ser uma teoria, ela não pode ser demonstrada falsa; se for, a teoria é refutada e, assim, ela poderá ser substituída por uma teoria melhor; ou pode-se simplesmente ser aperfeiçoada à medida que se descobrem novos fatos ou realizam-se novas experiências.

A seguir, apresento a definição de “teoria” descrita pela Academia Nacional de Ciências dos EUA (National Academy of Sciences, NAS) como sendo uma ideia que está bem testada e bem suportada pelas evidências científicas:

“uma explicação bem fundamentada de algum aspecto do mundo natural que pode incorporar fatos, leis e hipóteses testadas”.[3]

“uma explicação detalhada de alguns aspectos da natureza, que é apoiada por um vasto conjunto de evidências”.[4]

Para se descrever esses aspectos da natureza que podem ser usados para explicar o que podemos observar, utiliza-se o método científico. O método científico, tradicionalmente utilizado pela Academia e adotado em livros-textos, é um protocolo originário do empirismo filosófico, baseado na velha concepção aristotélica de explicação científica, que funciona como um processo de quatro etapas que envolvem observação, hipótese, experimentos e conclusão.

Analisando os conceitos apresentados

Como vimos no artigo anterior, para o professor e físico Arthur Bergold, doutorando em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade Estadual de Londrina,

“observação, identificação, descrição, investigação e explicação são as etapas do método científico. É considerado um erro confundir método científico com ciência ou afirmar que só se faz ciência seguindo todos os passos do método científico. Estudiosos da área da filosofia da ciência, mais especificamente da NOS (nature of science) criticam isso como sendo uma visão ingênua da ciência. No linguajar próprio deles, ‘naïve conception’.”.[5: p.514; 6: p.134]

O Astrofísico Eduardo Lütz também questiona esses conceitos apresentados pela Academia ao afirmar que:

“esses conceitos, além de incluírem essencialmente todo processo cognitivo humano, conflitam não só com as propostas dos pioneiros da ciência, mas também com outros critérios técnicos. No âmbito da ciência propriamente dita, a relação entre hipóteses, leis, teorias e modelos mudam bastante em relação a esses populares. Foi esse tipo de abordagem que os pioneiros da ciência combateram ao apresentar um conceito de ciência mais adequado. Infelizmente, a linha antiga sobreviveu (aliás, conforme predito por Galileu), e voltou a ser mainstream, mesmo fazendo afirmações e classificações contrárias ao que se observa na prática.”

Lütz ainda aponta o problema do efeito cascata que o uso de conceitos equivocados, sem critérios, pode gerar para a ciência,

“Um dos problemas é que essas definições populares acabam por permitir o encaixe de outras coisas também, tais como astrologia, tarot e uma série de outras atividades como se fossem científicas; e são inconsistentes, porque misturam falácias com itens válidos de maneira muito fácil e tornam o acesso a conhecimentos mais profundos praticamente inacessíveis, dada a quantidade muito maior de possibilidades falsas do que verdadeiras e de que a intuição humana normalmente só consegue levantar hipóteses falsas em várias áreas estratégicas. Há quem fale em hard sciences justamente por notar o quão frágeis e não-confiáveis são as ideias quando não seguem certos tipos de critérios, que são exatamente os propostos pelos pioneiros. Foi justamente a definição dos pioneiros que causou a revolução do conhecimento em geral. A degeneração conceitual que observamos atualmente essencialmente desconstrói o conceito de ciência, prendendo as pessoas ao conceito falso e tornando a verdadeira ciência inacessível na prática.

O astrofísico ainda fornece exemplos específicos sobre onde está o problema quando abordamos definições erradas de “teoria científica” e aponta o caminho certo,

“Assim como acontece com definições populares de ciência, que na prática não definem praticamente nada, também temos problemas com conceitos populares de teoria científica. Teorias que não são de fato científicas vêm e vão de maneira mais ou menos fácil e possuem eficiência não muito maior do que qualquer ideia mais popular; ideias populares em geral também tendem a se basear em muita observação. Quando usamos conceitos compatíveis com as propostas dos pioneiros, as coisas mudam totalmente de figura, incluindo a própria estrutura e funcionamento das teorias. Em algumas áreas, foi mantida a tradição dos pioneiros e os resultados falam por si e têm beneficiado todas as áreas do conhecimento.[7] Na tradição dos pioneiros, coleções de dados podem revelar padrões, os quais são chamados de leis. Essas leis podem ser usadas de forma exata ou aproximada (a última forma é mais comum) como postulados em formato tal que permitam a demonstração de teoremas a partir deles. Essas leis juntamente com os teoremas provados a partir delas (usualmente em número infinito) compõem uma teoria científica.

Especialmente a “definição" de ciência da NAS (que, de fato, coloca todo processo cognitivo humano como se fosse ciência) não faz sentido. Os pioneiros da revolução científica propuseram uma definição bem diferente da atual. Como afirma a Bioquímica Graça Lütz,

Pioneiros da Revolução Científica, como Galileu, Newton, Leonardo da Vinci e outros começaram a utilizar a palavra “ciência” com outro significado, à medida que divisavam um método de conhecer de forma inovadora e poderosa. A palavra original para essa nova ciência vem do grego μάθημα (transliterando, máthema), e significa ciência, conhecimento, instrução. A diferença entre a ciência scientia [defendida no conceito da NAS, por exemplo] e a ciência máthema [defendida pelos pioneiros da ciência] é que a primeira é abrangente e inclui qualquer forma de conhecimento, desde a consciência que se tem de alguma coisa, como um sinônimo de estar ciente, até conhecimento adquirido por observação, experiência, indução, dedução e mesmo intuição; enquanto a segunda é mais específica e se refere à natureza do conhecimento objetivo. Embora alguns elementos da Matemática já fossem havia muito conhecidos, esses pioneiros utilizaram e/ou descobriram ferramentas matemáticas que lhes possibilitaram lidar com leis que regem fenômenos da natureza. Eles se deram conta de que é muito mais eficiente e seguro descobrir e utilizar métodos matemáticos do que simplesmente confiar na capacidade mental humana, ainda que auxiliada por sistematizações filosóficas.[8]

Quer saber mais a respeitos dos conceitos corretos dentro da ciência? [Leia o artigo da Graça Lutz. As duas revelações (parte 1).[8]

Texto publicado em 20/06/2017 na Origem em Revista.

Referências:

[1] Lakatos EM, Marconi M. A. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1995.

[2] Gil AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. Ed. São Paulo: Atlas, 2002.

[3] Science and Creationism: A View from the National Academy of Sciences. 2. Ed. Washington, DC: The National Academy Press, 1999. Disponível em: https://www.nap.edu/catalog/6024/science-and-creationism-a-view-from-the-national-academy-of

[4] Science, Evolution, and Creationism. Washington, DC: The National Academies Press, 2008. Disponível em: https://www.nap.edu/catalog/11876/science-evolution-and-creationism

[5] Lederman NG, et al. Views of Nature of Science Questionnaire: Toward Valid and Meaningful Assessment of Learners’ Conceptions of Nature of Science. Journal Of Research In Science Teaching. 2002; 39(6):497–521.

[6] Pérez DG, et al. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação 2001; 7(2):125-153.

[7] Williams LP. History of science. Encyclopædia britannica. Disponível em: https://global.britannica.com/science/history-of-science

[8] Lutz G. As duas revelações (parte 1). Criacionismo. (07/06/2017). Disponível em: http://www.criacionismo.com.br/2017/06/as-duas-revelacoes-parte-1.html

 


Everton Alves fala sobre modelos de criação, na Revista Adventista de Junho

CIENTISTA CRIACIONISTA: EVERTON FERNANDO ALVES, NA RA DE JULHO
CIENTISTA CRIACIONISTA: EVERTON FERNANDO ALVES, NA RA DE JULHO

A Revista Adventista deste mês apresenta um artigo muito relevante, coerente e didático, escrito pelo Diretor de Ensino do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira (Numar-SCB), o Mestre em Ciências Everton Fernando Alves. No texto, o cientista analisa duas interpretações para a criação da origem da vida na Terra, com intervalo passivo, e sem intervalo. Para ele, "a evidência sugere a existência de uma terra antiga, mas com vida recente", mas os pesquisadores continuam procurando respostas com perguntas equivocadas. "A resposta poderia ser de fácil acesso, caso os cientistas se voltassem para a Bíblia como ponto de partida na busca de nossas reais origens", avalia Alves.

Alves relata que ao longo do seu trabalho de pesquisa e divulgação do criacionismo, tem percebido que "boa parte dos adventistas criacionistas não consegue aceitar a interpretação de que apenas a vida no planeta Terra seja jovem, sendo antigos o Universo e a matéria (partículas elementares) do planeta", mas uma análise do texto bíblico em conjunto com os dados atuais do conhecimento científico mostra que "essa possibilidade existe, é razoável e deve ser introduzida na discussão sobre as origens", alerta. A própria SCB defende que a criação da Terra não deve ser confundida com a criação do Universo.

Você se considera um criacionista da Terra jovem convencional ou um criacionista do intervalo passivo?

Confira o artigo completo na Revista Adventista de Junho/2017, que conta com uma tiragem de 15.000 exemplares distribuídos em todos os departamentos e organizações da IASD pelo Brasil, e tire suas próprias conclusões.

Caso ainda não seja um assinante da revista, segue o link com mais informações sobre como ter acesso à revista impressa ou digital: http://www.revistaadventista.com.br/

A TEORIA DE QUE A CRIAÇÃO DO UNIVERSO E DA VIDA NA TERRA OCORREU EM MOMENTOS DISTINTOS PARECE SER MAIS COERENTE COM A BÍBLIA E A CIÊNCIA

A TEORIA DE QUE A CRIAÇÃO DO UNIVERSO E DA VIDA NA TERRA OCORREU EM MOMENTOS DISTINTOS PARECE SER MAIS COERENTE COM A BÍBLIA E A CIÊNCIA

 


Ciência observacional vs Ciência histórica

Você já ouviu na televisão que há bilhões de anos ocorreu uma explosão no espaço? Ou que há milhões de anos isso ou aquilo aconteceu? No último século, muitas hipóteses e modelos neodarwinistas têm sido propostos para tentar explicar de forma “científica” a origem da vida na Terra, e todos eles utilizam uma única versão que depende do naturalismo, sendo este base para a suposta evolução química da vida que teria dado origem às primeiras formas de vida. De acordo com o neodarwinismo, a forma mais primitiva de vida do planeta seria um organismo de uma única célula chamado “Luca”, que teria vivido há quatro bilhões de anos. Afinal, alguém estava lá para observar esse organismo considerado ancestral comum universal mudar lentamente para formas mais complexas? Essa é a pergunta fundamental que norteará este texto.

Será que o fato de bilhões de dólares serem gastos anualmente com pesquisas e artigos publicados afirmando conclusões sobre tais formas primitivas de vida se traduz em fazer ciência? Afinal, o que é a ciência? Segundo a definição usada continuamente pela Academia, ciência é a “observação, identificação, descrição, investigação experimental, e explicação teórica de um fenômeno”.[1] Dito de forma mais simples, a ciência envolve observar coisas do mundo real e tentar explicar a forma como elas funcionam. A palavra-chave aqui é observação.

Diante disso, podemos retomar a pergunta fundamental: Como alguém poderia saber como ocorreu? Havia alguém lá para observar? Bem, de acordo com o Positivismo Lógico adotado quase sempre (quando convém) pela comunidade científica, uma hipótese só pode ser considerada válida se suas previsões puderem passar por um teste empírico. Embora haja críticas à corrente filosófica positivista por parte de ninguém menos que Karl Popper, essa idéia ainda é muito utilizada no círculo acadêmico. Segundo o professor e físico Arthur Bergold, doutorando em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade Estadual de Londrina,

“observação, identificação, descrição, investigação e explicação são as etapas do método cientifico. É considerado um erro confundir método cientifico com ciência ou afirmar que só se faz ciência seguindo todos os passos do método científico. Estudiosos da área da filosofia da ciência, mais especificamente da NOS (nature of science) criticam isso como sendo uma visão ingênua da ciência. No linguajar próprio deles, ‘naïve conception’.” [2: p.514; 3: p.134]

Portanto, é, no mínimo, contraditória a insistência no uso de um princípio verificacionista que não pode ser verificado quando tratamos de pesquisas sobre a origem da vida. Outro ponto importante é que temos de reconhecer que há uma enorme diferença entre ciência observacional e ciência histórica. Ambas são válidas, mas bem diferentes. Vamos definir as duas rapidamente. Ciência observacional é a ciência experimental feita no laboratório ou no campo. Utiliza-se do naturalismo metodológico e envolve repetidos experimentos e observação no presente. É graças à ciência observacional que encontramos cura para doenças, criamos tecnologia como no desenvolvimento de smartphones, satélites, carros, aviões, ônibus espaciais, além de produção de textos como este usando notebooks, entre outras coisas.[4]

Já a ciência histórica é aquela que se preocupa em extrapolar as observações presentes para determinar o que ocorreu no passado distante; no entanto, coisas que aconteceram no passado não podem ser checadas do mesmo modo que faríamos no presente. Alguns geólogos, por exemplo, se utilizam do conceito uniformitarista ao tomar as taxas atuais de decaimento radiométrico e formação rochosa e imaginam que as taxas sempre foram as mesmas. Cada vez mais um número surpreendente de químicos e físicos vem atacando o status científico da evolução neodarwiniana.[5] A crítica mais acentuada da ciência histórica, porém, vem de um editor da Nature, Henry Gee, que explicitamente atacou o status científico de todas as hipóteses sobre o passado remoto. Em suas palavras, “eles nunca podem ser testados por experiência, e assim eles não são científicos [...] Nenhuma ciência pode ser histórica”.[6: p.5, 8]

Embora a ciência histórica se baseie em observações, e por isso também seja considerada empírica, quase tudo que extraímos dela em termos de origem da vida, na forma como vem sendo praticada atualmente, é baseado no naturalismo filosófico, isto é, especulações ou, no máximo, evidências circunstanciais de eventos passados com base no que vemos no presente. Isso não significa, contudo, que hipóteses sobre eventos passados não possam ser testadas.[5] Bons pesquisadores históricos se concentram na formulação de múltiplas hipóteses concorrentes em vez de uma única hipótese sobre eventos passados particulares (assim como alguns criacionistas e adeptos do design inteligente o fazem). Cada hipótese deveria ser submetida independentemente a testes severos, com a esperança de que alguns pudessem sobreviver. Apesar disso, temos que admitir que existam limitações de dados históricos ou na forma como a ciência histórica vem sendo conduzida que justificam a necessidade de cautela sobre conclusões. Em outras palavras, não podemos testar diretamente nossas conclusões porque não podemos repetir o passado.[4]

Mesmo diante desse acalorado debate acerca do status científico da ciência histórica, ela segue mantendo sua importância. Vamos usar um exemplo da estátua do Cristo Redentor, aquele monumento carioca com 38 metros de altura e 28 metros de largura, medindo a extensão de seus braços esticados, sendo a terceira maior escultura de Cristo no mundo. Localizado no topo do morro do Corcovado, no Rio de Janeiro, ele foi construído pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa em colaboração com o escultor francês Paul Landowski, e com o engenheiro francês Albert Caquot, entre 1922 e 1931, sendo visitado por milhões de pessoas a cada ano. Bem, advinha só, toda essa descrição é verdade! Mas como nós testamos se isso realmente confere? Bem, ao aplicarmos ciência observacional, podemos, é claro, observar o Cristo redentor a qualquer momento, quando estamos no Rio de Janeiro. Ele está aqui no presente. Assim, podemos continuar testando a altura e comparando com todas as outras estruturas de Cristo ao redor do mundo, e confirmar a observação que, de fato, ela é a terceira maior escultura de Cristo do mundo. Mas essa é a extensão dos fatos que podem ser confirmados pela ciência observacional em referência apenas a essa afirmação.

Como realmente sabemos que Heitor a desenhou? Como realmente sabemos que foi iniciada sua construção em 1922 em colaboração com franceses? Como realmente sabemos quantas pessoas a visitaram? Isso tudo está no passado e não pode ser repetido. Para esse tipo de informação, precisamos ir para fora dos limites da ciência observacional e descobrir o que nos foi comunicado por meio de documentos históricos e relato de testemunhas oculares. Além disso, temos que acreditar que essas testemunhas oculares e documentos são confiáveis. O mesmo é verdade quando falamos sobre a origem da vida na Terra. A Terra está aqui, todos concordamos com isso. Mas e quanto à origem da vida? Quando falamos de vida, temos que utilizar especificamente o campo de estudos da vida que é a Biologia. Mas será que o que nos diz a Biologia evolutiva acerca da origem da vida é realmente factual?

O biólogo Ernst Mayr (1904–2005), um dos evolucionistas mais influentes do século 20, escreveu a respeito da filosofia da Biologia. Mayr subdivide a filosofia da biologia em dois ramos fundamentais que não devem ser confundidos: um pertence à biologia funcional (situa-se no campo da ciência observacional/experimental) e o outro se refere à biologia histórica ou evolutiva (ou ciência histórica baseada no naturalismo filosófico).[7] Enquanto na biologia funcional a experimentação científica é frequentemente utilizada, a biologia histórica é caracterizada por cenários imaginários e narrativas hipotéticas nas quais a experimentação não ocorre.

Realmente, entendemos que a maioria das pesquisas que se concentram na biologia funcional tem contribuído para o progresso da ciência com inúmeras descobertas importantes. Podemos mencionar o exemplo do experimento contínuo mais duradouro sobre a evolução, iniciado em 1988 pelo biólogo evolutivo Richard Lenski.[8] Essa pesquisa que dura mais de 25 anos tem relatado um exemplo detalhado sobre a capacidade evolutiva em ação, que ocorre bem diante dos olhos dos pesquisadores envolvidos num laboratório. Lenski e colegas colocaram em 12 frascos cópias idênticas de Escherichia coli. Então, cultivaram a bactéria com uma dieta escassa de glicose (isto é, solução contendo somente nutrientes mínimos para a sobrevivência e reprodução da colônia bacterial) e contendo também citrato. Ao longo das 52 mil gerações (o que equivale a cerca de um milhão de anos para animais de grande porte), a bactéria se adaptou ao ambiente peculiar. A cada 500 gerações (75 dias), Lenski e seus colegas congelavam algumas das bactérias, que poderiam ser aquecidas para serem comparadas ​​aos seus antepassados (descongelados e ressuscitados).

O resultado foi que uma das populações de bactérias se tornou capaz de usar ácido cítrico como fonte de carbono (ou nutriente) em um ambiente aeróbico, algo que até então era desconhecido em populações E. coli em condições semelhantes. Porém, o que não foi mencionado é que bactérias E. coli são capazes de sintetizar citrato normalmente em ambientes anaeróbicos (na presença de glucose ou glicerol), logo, não apresentaram nenhuma nova função. Elas apenas não possuem, normalmente, capacidade de utilizar o mesmo na presença de oxigênio.[9] Ademais, a velocidade de reprodução das cepas caiu de cerca de uma hora para mais ou menos 40 minutos. Além disso, houve mudança de forma, ficando mais arredondadas (sendo que isso, na verdade, já é um processo natural entre as bactérias, quando o meio carece de nutrientes; apenas uma mutação é suficiente para levar algumas cepas a alterar sua forma de maneira definitiva.[10] O curioso é que a mídia esqueceu de mencionar ao público leigo que houve efeitos colaterais resultantes dessas “evoluções”, sendo eles: quatro dessas doze populações desenvolveram defeitos nos sistemas reparatórios de DNA.[8, 11]

Afinal, como resume bem o jornalista da ciência Michelson Borges: “Tudo o que as bactérias adquiriram foi a capacidade de se multiplicar vinte minutos mais rapidamente que seus antepassados. Só isso. Trata-se, portanto, de ‘evolução’ ou simplesmente adaptação? No que as bactérias se transformaram, depois de tanto tempo e tantas gerações? Em nada além de bactérias com pequenas adaptações. E isso é perfeitamente previsto pelo modelo criacionista.” E poderíamos ainda acrescentar outras perguntas fundamentais à discussão: Houve inéditas funções surgindo do nada através de mutações? Houve o surgimento de novo material genético específico e funcional? Parece que não! O resultado final do experimento foi que a biologia funcional demonstrou em laboratório a diversificação de baixo nível (microevolução) ocorrendo em um tipo de espécie de bactéria. Conclusão: ainda não foi dessa vez que os efeitos macroevolutivos (narrativa imaginária da biologia histórica) foram observados!

Em relação a isso, Mayr também revelou essa outra faceta da Biologia a qual chamou de biologia evolutiva ou histórica:

A biologia evolutiva, ao contrário da física e da química, é uma ciência histórica – o evolucionista tenta explicar os eventos e os processos que já ocorreram. As leis e as experiências são técnicas inadequadas para se explicar tais eventos e processos. Em vez disso, constrói-se uma narrativa histórica, consistindo numa tentativa de reconstrução de um cenário particular que levou aos eventos que estamos tentando explicar.[12: p. 80]

Ele afirma ainda que “nenhum princípio da biologia histórica jamais poderá ser reduzido às leis da física ou da química”; neste contexto, ele está se referindo à hipótese do surgimento da vida por meio da evolução química da vida ou proposta do “Mundo RNA”.[13: p. 79]

Em resumo, o know-how (saber prático) científico necessário para fabricar smartphones e computadores está muito mais bem estabelecido do que, digamos, a afirmação de que os humanos evoluíram de algum ancestral comum ao macaco.

Percebemos, portanto, que as pesquisas da biologia histórica não nos fornecem pleno conhecimento de como se deu a origem da vida. Mas será que esse é o único caminho a ser utilizado para compreendermos nossas origens? Lembra da pergunta inicial deste texto? Havia alguém lá para observar a origem da vida? A resposta é sim! Deus estava lá e Ele nos contou como criou. Ele inspirou pessoas para escreverem Suas palavras que se tornariam livros e que seriam compilados em um único livro completo chamado Bíblia, o qual tem sido comprovado vez após vez e que demonstrou ser totalmente confiável em todas as suas alegações e ensinamentos.[4] Até estudiosos seculares admitem que a Bíblia registra acontecimentos históricos com precisão.[4, 14]

Agora, sobre a ciência observacional, ela também confirma a Bíblia? Sim! E o que é mais importante perceber é o fato (observável) de que o Universo é lógico e ordenado.[4] Isso faz sentido apenas se o Seu Criador é lógico e impôs ordem sobre a Sua criação. Não faz nenhum sentido se o Universo é só resultado de uma grande explosão. Também só faz sentido podermos observar e repetir experimentos se o Universo obedece constantemente às mesmas leis dia após dia e que, por sua vez, só faz sentido se Aquele que deu a Lei a criou desse modo e a mantém.

Texto originalmente publicado em 06/06/2017 na Origem em Revista.

Referências

[1] The American Heritage Dictionary of the English Language, 1996, s.v. “Science.”

[2] Lederman NG, et al. Views of Nature of Science Questionnaire: Toward Valid and Meaningful Assessment of Learners’ Conceptions of Nature of Science. Journal Of Research In Science Teaching. 2002; 39(6):497–521.

[3] Pérez DG, et al. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação 2001; 7(2):125-153.

[4] The Nature of Science. Coleção Check This Out. Produzido por Answers in Genesis. Petersburg, 2011. 19 min. Son, Color, formato: DVD.

[5] Cleland CE. Historical Science, Experimental Science, and the Scientific Method. Geology. 2001;29(11):987-990.

[6] Gee H. In search of deep time. New York: The Free Press, 1999, 267p.

[7] Souza Junior NN. Filosofia das Origens: Uma Introdução à Controvérsia Criacionismo x Evolucionismo. Acta Científica. Ciências Humanas 2010; 2(19):9-22.

[8] Blount ZD, Borland CZ, Lenski RE. Historical contingency and the evolution of a key innovation in an experimental population of Escherichia coli. PNAS. 2008; 105(23):7899–906.

[9] Pos KM, Dimroth P, Bott M. The Escherichia coli Citrate Carrier CitT: a Member of a Novel Eubacterial Transporter Family Related to the 2-Oxoglutarate/Malate Translocator from Spinach Chloroplasts. J Bacteriol. 1998; 180(16):4160–4165.

[10] van Heijenoort J. Peptidoglycan Hydrolases of Escherichia coli. Microbiol Mol Biol Rev. 2011; 75(4): 636–663.

[11] Sniegowski PD, Gerrish PJ, Lenski RE. Evolution of high mutation rates in experimental populations of E. coli. Nature. 1997;387(6634):703-5.

[12] Mayr E. Darwin’s Influence on Modern Thought. Scientific American 2000;283(1):78-83.

[13] Mayr E. What makes biology unique? Considerations on the Autonomy of a Scientific Discipline. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2004.

[14] The Smithsonian’s official statement “The Bible as History”. Department of Anthropology, National Museum of Natural History MRC 112, Smithsonian Institution, Washington, DC 20560. Disponível em: http://www.csnradio.com/tema/links/SmithsonianLetter.pdf