Carta ao Editor: Uma Ferramenta Científica Útil ao Design Inteligente

O gênero Carta ao Editor é considerado uma publicação científica e tem sido foco de interesse na área do design inteligente. Cartas ao Editor representam a correspondência entre diversos autores e os leitores, através dos editores das revistas.[1] Portanto, uma Carta irá ser avaliada pelo Editor, que avaliará a pertinência de sua publicação. Dessa forma, elas oferecem a oportunidade de debater em um fórum aberto, e contribuem para a validação da pesquisa. Praticamente todas as grandes revistas científicas têm, na atualidade, uma seção de Cartas ao Editor, que possui basicamente duas funções: 1) servir de Opiniões e comentários sobre um artigo específico publicado nos últimos números da Revista; 2) servir de espaço para que autores possam apresentar resultados preliminares de suas próprias pesquisas ou sobre temas de relevância científica de interesse à comunidade tais como a descrição de riscos à saúde pública ou avanços em uma nova área da ciência.[1]

Em relação à primeira função, tem sido a mais frequente entre os trabalhos publicados nesse tipo de seção. Os leitores constantemente apresentam suas críticas ou solicitam esclarecimento de eventuais dúvidas suscitadas por um artigo publicado na revista.[1] Nesse formato, há a possibilidade de haver réplica por parte do autor do artigo que está sendo criticado, e até mesmo uma tréplica por parte do leitor que apresentou a crítica. A depender do periódico, há um prazo, que varia entre 15 dias e 3 meses, para comentar um artigo depois de sua publicação.

Ainda em relação à função da Carta ao Editor, pesquisadores concordam que

“mesmo com a nítida melhora da produção científica e do rigor metodológico dos artigos publicados, não há trabalho científico perfeito, vieses pós-publicação podem ser identificados e motivar até mesmo a retratação dos autores ou, em caso de se constatar fraude ou manipulação dos resultados, a retirada do artigo da revista. Em outros casos, erros estatísticos podem ser evidenciados, ou, ainda, mínimas correções requeridas, não comprometendo as conclusões do artigo”.[1: p. 1]

Em 2004, por exemplo, o professor mestre em História da Ciência Enézio Eugênio de Almeida Filho, o então coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente (NBDI), enviou uma Carta ao Editor para a revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos onde questionava especificamente alguns pontos de um artigo publicado na revista, e o criticava afirmando que o trabalho, “documentalmente infundado”, distorceria a realidade.[2]

O artigo criticado, intitulado “De Darwin, de caixas-pretas e do surpreendente retorno do criacionismo”, publicado no Dossiê Darwinismo de 2001, afirmava a equiparação, no segundo semestre de 1999, da teoria da evolução de Darwin ao texto bíblico do Gênesis nos currículos escolares de um estado norte-americano.[3] Para o professor Enézio, este ponto não corresponde aos fatos, e suas críticas direcionadas ao artigo são justificadas diante da tendenciosa análise e crítica de seu autor para com o livro A caixa preta de Darwin, do bioquímico Michael Behe. Além disso, o artigo criticado por Enézio identificou os proponentes do design inteligente como “criacionistas”, polarizando o tema em “ciência versus religião” quando o que estava em debate era a questão científica da “complexidade irredutível” levantada por Behe.[2]

A propósito, considero uma das maiores publicações científicas no design inteligente exatamente uma Carta ao Editor escrita por Michael Behe.[4] Em 2009, Behe escreveu essa carta a fim de exercer o direito de resposta a um artigo original publicado no ano de 2008, cujo objetivo do autor era expor as supostas falhas de Behe acerca dos limites matemáticos para a evolução darwiniana, publicadas no ano de 2007 em seu livro The Edge of Evolution. Para entendermos melhor a situação é necessário analisarmos o que dizia o livro de Behe. No livro, baseando-se em estudos de saúde pública sobre a malária, Behe observou que um novo aparecimento de resistência à cloroquina em parasitas da malária foi um evento de probabilidade de 1 em 1020 (para o cálculo, a propósito, ele utilizou uma estatística empírica da literatura).[5]

Assim, a probabilidade de ocorrer em seres humanos uma dupla mutação simultânea por acaso seria de 1 para 10 bilhões.[5] Isso exigiria mais organismos e gerações do que os que estiveram disponíveis ao longo de toda a história da Terra. Portanto, quando múltiplas mutações devem estar presentes simultaneamente para haver ganho de uma vantagem funcional, a evolução darwiniana fica limitada. Diante disso, em 2008, numa tentativa improdutiva de expor supostas falhas nos argumentos de Behe, os biólogos Rick Durrett e Deena Schmidt acabaram reconhecendo a contragosto que o argumento de Behe estava basicamente correto.[6]

Na ocasião, os biólogos usaram uma estimativa teórica a partir de um modelo de genética populacional para calcular a probabilidade de duas mutações simultâneas ocorrer por evolução darwiniana em uma população de seres humanos. Para Behe, o modelo utilizado pelos biólogos para o cálculo é inadequado [4]. Durrett e Schmidt descobriram que um evento como esse levaria 216 milhões de anos para acontecer, enquanto o cálculo de Behe foi “5 milhões de vezes maior” do que eles encontraram [6: p. 1507]. Ainda assim, 216 milhões de anos continuavam sendo um tempo demasiadamente longo. Tendo em vista que os humanos supostamente divergiram de seu ancestral comum com os chimpanzés há apenas 6 milhões de anos, eles reconheceram que tais mutações são “muito pouco prováveis de acontecer em uma escala razoável de tempo”.[4; 5: p. 1507]

Em 2015, eu também contribuí com o movimento do design inteligente ao publicar uma Carta no Clinical and Biomedical Research, periódico revisado por pares situado no campo de interface entre Biologia e Medicina. Foi mais uma divulgação com o objetivo exclusivo de apresentar e defender a proposta da Teoria do Design Inteligente (TDI) em uma revista revisada por pares na área de Biomedicina. A propósito, a convite do próprio editor da revista!

Através desse convite, pude abordar os principais conceitos ligados à teoria, ressaltar questões de relevância da TDI para o progresso científico e desmitificar alguns argumentos equivocados, constantemente divulgados por seus oponentes a fim de descaracterizar o design inteligente. Também apresentei a história do movimento do design inteligente ao redor do mundo, bem como de suas publicações científicas. Ademais, citei os principais objetivos, compromissos e desafios da TDI para o seu estabelecimento como teoria científica, seus critérios metodológicos, sua literatura especializada nacional e internacional, além de deixar registrada minha perspectiva futura em relação às futuras publicações científicas baseadas em design.

Essas evidências nos mostram a influência e/ou poder que uma Carta ao Editor pode exercer sobre uma determinada área da ciência.

Fonte: Texto publicado em 14/01/2016 no Portal TDI Brasil.org.

Referências:

[1] Amorim MMR, Souza ASR. A cultura da carta ao editor. Femina. 2013; 41(1):1-4. [Link]

[2] Almeida Filho EE. Cartas. Hist. cienc. saude-Manguinhos. 2004; 11(2):519-20. [Link]

[3] Martins MV. De Darwin, de caixas-pretas e do surpreendente retorno do ‘criacionismo’. Hist. cienc. saude-Manguinhos. 2001; 8(3):739-756. [Link]

[4] Behe MJ. Waiting Longer for Two Mutations. Genetics. 2009; 181(2): 819–820. [Link]

[5] Behe MJ. The Edge of Evolution: The Search for the Limits of Darwinism. New York: Free Press, 2007.

[6] Durrett R, Schmidt D. Waiting for Two Mutations: With Applications to Regulatory Sequence Evolution and the Limits of Darwinian Evolution. Genetics 2008; 180(3):1501-1509. [Link]


Design Inteligente na morte?

Argumento evolucionista:

O design inteligente é capaz de verificar um projeto intencional nas garras e dentes de um leão que os utiliza para caçar e matar um antílope a fim de saciar sua fome? Em outras palavras: é capaz de identificar um projeto intencional na morte?

Argumento do design:

Alguns adeptos da Teoria do Design Inteligente (TDI) até poderiam levantar objeções de natureza moral a esse respeito, porque muitas vezes a intencionalidade desperta essa questão. Mas devemos nos restringir apenas ao campo científico. Nesse sentido, o design está especificamente comprometido com forma e função (Ex.: como lindas e eficientes facas de cozinha). A propósito, as espadas são projetos formidáveis (design para a morte).

Mas em relação a questionamentos como esse, precisamos separar o que é científico do que não é científico. Esse tipo de argumento é científico, mas a analogia não. Por quê? Porque estão sendo usadas duas coisas ontologicamente diferentes: uma teoria e um leão. Uma teoria científica é uma tentativa LÓGICA de nos levar ao conhecimento. O leão é um ser.

Essa pergunta científica se reduziria a pó numa análise filosófica. Por quê? Porque está atribuindo à TDI o status de TEORIA DO TUDO – capaz de identificar um projeto intencional de morte! Os proponentes do design buscam esclarecer que a TDI é uma teoria científica minimalista que IDENTIFICA sinais de inteligência. Só isso!

Quanto ao leão, se realmente suas garras e dentes foram projetados para matar, por que nem sempre ele mata um antílope? Quanto ao antílope, se suas pernas foram projetadas para correr, por que nem sempre sobrevive? Aqui entramos em outro ponto. É preciso entender que a TDI possui um comprometimento mínimo com o grau de otimização (eficiência) de um projeto. Aliás, esse comprometimento mínimo está relacionado às regras básicas de sistemas. Portanto, uma das predições da TDI é que existem fatores que podem vir a interferir no design de um projeto.

(Texto publicado em 25/02/2017 em coautoria com Junior Eskelsen, responsável pelo Portal tdibrasil.org)